Num momento em que a pressão sobre a oferta habitacional em Portugal exige maior velocidade, disciplina e eficiência, a inteligência artificial (IA) surge como uma ferramenta crucial para transformar o setor imobiliário. Quem o diz é o recente estudo da Boston Consulting Group (BCG), intitulado “BCG Executive Perspectives for Real Estate – AI-First Companies Win the Future”.
A BCG defende no estudo que a adoção de soluções tecnológicas pode ajudar promotores e operadores a mitigar ineficiências históricas, como atrasos e derrapagens orçamentais.
Atualmente, o panorama global do setor revela vulnerabilidades estruturais: 66% dos projetos imobiliários registam atrasos no calendário e 39% enfrentam derrapagens de custo. Estes problemas derivam da fragmentação entre os intervenientes, falhas na execução e falta de padronização. Apesar de ser um candidato natural para a modernização, o imobiliário acumula um atraso de 15 pontos percentuais em maturidade de IA face à média de outros setores, com o investimento previsto para 2026 a situar-se 0,8% abaixo da média intersetorial.
Para as empresas de desenvolvimento imobiliário, a aplicação de IA em áreas como o procurement, design generativo, simulação e apoio ao licenciamento pode gerar um aumento de margem entre quatro e sete pontos percentuais. No segmento habitacional, estima-se que a compressão de prazos ao longo de todo o ciclo de desenvolvimento — desde a seleção de terrenos até à entrega — possa atingir cerca de 30%.
"O problema da habitação exige respostas urgentes e mais eficientes", afirma Carlos Elavai, managing director & partner da BCG Lisboa. "Em Portugal, onde a oferta de habitação acessível continua insuficiente, os processos de licenciamento são morosos e os custos permanecem sob pressão, a adoção de AI pode impulsionar uma transformação estrutural na forma como os projetos são concebidos, avaliados e entregues".
Os benefícios da inteligência artificial estendem-se de forma transversal a toda a cadeia de valor do setor. Na gestão de investimento, o impacto traduz-se numa melhoria de três a quatro pontos percentuais de IRR, enquanto na gestão de ativos e propriedades se projeta um aumento de dois a três pontos percentuais de EBIT. Além disso, a tecnologia atua diretamente na mitigação de riscos, permitindo reduzir a exposição à inflação de custos e acelerar a rotação de capital.
As soluções com maior impacto imediato começam diretamente na execução em obra. O uso de assistentes com visão computacional para monitorizar o progresso e identificar riscos em tempo real gerou, num dos casos analisados pela consultora, um retorno de seis vezes sobre o investimento, além de um ganho de 12% na produtividade e uma redução de 48% em incidentes de segurança.
Na fase de desenho e planeamento, as ferramentas de design generativo e simulação permitem testar múltiplos cenários rapidamente, otimizando as sequências construtivas e evitando erros que resultam em sobrecustos. Adicionalmente, no procurement, a tecnologia permite otimizar compras e comparar propostas com maior agilidade face à volatilidade dos materiais.
A transformação digital, contudo, exige o envolvimento direto das chefias. O relatório da BCG sublinha que o sucesso e o valor extraído dependem de o CEO assumir a liderança da agenda de adoção da IA, definindo metas mensuráveis e investindo na capacitação das equipas.
Em 2026, 90% dos CEO globais acreditam que os agentes de IA trarão um retorno mensurável para as suas organizações. No setor imobiliário, os líderes que avançarem primeiro conquistarão uma vantagem competitiva decisiva no mercado.