Há, desde 2025, uma tendência cómoda na leitura ocidental do segundo mandato de Donald Trump: tratá-lo como uma anomalia, um desvio de rumo, uma espécie de parêntesis de irracionalidade num sistema que, passado o momento, regressaria às suas regras habituais. É uma leitura tranquilizadora. Mas é insuficiente.

O que se observa não é apenas perturbação. É aceleração. E a diferença importa. Uma anomalia interrompe; um acelerador altera a trajectória. A primeira suspende o curso e permite imaginar o regresso ao ponto anterior. O segundo muda o ponto de chegada de tal forma que o ponto de partida deixa de ser recuperável. A pergunta relevante não é, portanto, quando termina Trump. É o que sobra depois dele, e se esse saldo serve, ou não, os interesses estratégicos americanos a longo prazo.

Convém começar por aqui: Trump é menos causa do que consequência. É produto de uma transformação que o precede, de uma alteração do substrato sociológico de parte do eleitorado americano, moldada por fragmentação mediática, polarização afectiva e erosão dos mecanismos tradicionais de mediação informativa. Trump não criou esse terreno. Capitalizou-o.

E a reposição estratégica dos Estados Unidos também não começa com ele. Já vinha em curso quando a Europa, primeiro com a Crimeia em 2014 e depois com a invasão de 2022, foi obrigada a reconhecer que a ordem de segurança que julgava adquirida estava, afinal, sob contestação. Esse ponto é crucial: separa o sintoma da doença. Trump é a face mais visível de uma transformação que o ultrapassa.

A tese desta série é simples na formulação, ainda que desconfortável nas suas implicações: o período trumpiano pode ser lido como uma forma de destruição criativa da ordem global. Não se trata de um colapso, mas de uma desarticulação selectiva de equilíbrios, dependências e expectativas. O resultado é a abertura de espaço para um reposicionamento dos Estados Unidos como arquitectos de uma ordem diferente daquela que vinha, lentamente, a perder funcionalidade.

Isso exige uma correcção prévia de enquadramento: identificar Trump com a totalidade da acção estratégica americana é um erro. A administração não é um monólito, e a Casa Branca não esgota o Estado. Por detrás da aparência de desordem coexistem actores, interesses e racionalidades de longo prazo, anteriores a Trump e capazes de o sobreviver. A National Security Strategy de 2025 codificou essa coerência com particular nitidez: o foco da competição estratégica deslocou-se para o controlo das cadeias de abastecimento globais e dos seus nós críticos. O centro de gravidade deixou de ser apenas militar; passou a ser geoeconómico.

É por isso que o caos, em política externa, raramente é puro. Quase sempre é atravessado por linhas de força que não se deixam reduzir ao temperamento de quem ocupa o cargo. O que esta série procurará mostrar é precisamente isso: por trás do ruído existe um mecanismo, e esse mecanismo tem alvos, expõe fragilidades e aponta para uma nova ordem.

Porque a destruição a que assistimos não é desordem gratuita. É reorganização com método. E o método é geoeconómico. Faz-se de tarifas, de energia, de tecnologia e do controlo das rotas por onde tudo isso circula.

Este é o primeiro texto de uma série de seis, sob o título “A destruição que reorganiza”.