Quando era criança, recordo-me das visitas de escola ao Museu Gulbenkian. Tenho memórias vívidas da visita às exposições do museu, em salas demasiado vastas, pesadas e elegantes para uma criança que ainda não compreendia por completo o que via. Mais tarde, as professoras permitiam-nos correr à solta nos jardins e à volta do lago, e não era raro encontrarmos cantos escondidos pelas árvores, onde nos escondíamos e brincávamos.
Ao longo dos anos, continuei a visitar sobretudo o jardim e, como sempre, perdia-me com o meu péssimo sentido de orientação. Por vezes, dava voltas e voltas ao edifício, escolhendo atalhos por entre as árvores e densa vegetação, na esperança de encontrar o anfiteatro ou a entrada para o museu. É notável como, no meio de uma cidade como Lisboa, e junto a artérias tão congestionadas pelo trânsito, na Fundação Calouste Gulbenkian, sentimos que entramos numa bolha especial, resguardada da agressividade e do ruído do mundo exterior. Ali, tudo é composto e sereno.
Após um ano e meio encerrado para obras de renovação, o Museu reabriu a tempo de celebrar o seu 70.º aniversário, reforçando ainda mais a ligação entre arte, arquitetura e natureza, que tornou o espaço único e procurado. A reabertura vem na esteira da inauguração, em 2024, do renovado CAM – Centro de Arte Contemporânea Gulbenkian, que acolhe a coleção moderna e contemporânea da Fundação, e com um jardim também ele sujeito a constantes transformações, mantendo a visão original projetada por Gonçalo Ribeiro Telles.
É possível visitar de novo as coleções reunidas pelo arménio Calouste Gulbenkian, que escolheu Lisboa como cidade para receber o seu espólio e transformou para sempre a cultura portuguesa. O Museu Calouste Gulbenkian poderá ser mais discreto do que muitos outros museus europeus mais famosos, mas carrega consigo uma incrível história que atravessa as grandes convulsões da História europeia.
Como seria Lisboa hoje se não tivéssemos recebido este magnata que se apaixonou pela cidade? Calouste Gulbenkian chegou a Lisboa como quem chega a um porto de abrigo e ofereceu-nos um mundo inteiro, repleto de arte persa e egípcia, de obras de Rembrandt e Lalique, tudo isso trazido por um homem que Portugal recebeu quando mais precisava de ser recebido. Numa época em que a Europa restringe as suas fronteiras e reforça o controlo anti-imigração, é bom lembrar que, às vezes, a maior herança que podemos receber é a de um estrangeiro, que simplesmente escolheu fazer da cidade a sua casa.