Centenas de lesados do Banco Espírito Santo (BES) reuniram-se em protesto em Espinho, cidade onde reside o primeiro-ministro, para exigir ao Estado a devolução de poupanças que ascendem a valores entre 10 milhões e centenas de milhões de euros. A manifestação, convocada pela Associação de Lesados do Sistema Bancário (ALSB), decorreu junto à Praia da Baía, a poucos metros da residência oficial do chefe do Governo.

De acordo com a ALSB, 22 lesados ainda não receberam qualquer valor, totalizando 10 milhões de euros. Outros 10.000 clientes, incluindo 8.000 emigrantes, receberam apenas entre 50% e 75% das suas poupanças, permanecendo por pagar montantes na ordem das centenas de milhões de euros.

Em comunicado, os porta-vozes da associação, Jorge Novo e António Silva, sublinharam que o Estado, enquanto acionista do Novo Banco, tem a responsabilidade de assegurar a devolução dos fundos. Referem que uma conta ‘escrow’ criada pelo Banco de Portugal, no valor de 1.837 milhões de euros, foi desviada, violando uma garantia fiduciária e irrevogável destinada a indemnizar os lesados.

Os manifestantes criticam o atual Governo e recordam que, durante a campanha eleitoral, o primeiro-ministro prometeu encontrar uma solução para o problema. ‘Agora é o atual ministro das Finanças quem tem a responsabilidade de resolver este problema’, afirmou António Silva.

Jorge Novo destacou a ‘profunda injustiça e incerteza’ vivida pelas famílias, que há 12 anos aguardam a restituição das poupanças, muitas vezes economias de uma vida inteira. Salientou que ‘é incompreensível que o Estado continue sem apresentar uma solução’, lembrando que a situação já provocou ‘suicídios’.

Um dos lesados, um carpinteiro octogenário que prefere não ser identificado, contou à Lusa: ‘Fui para a África do Sul aos 25 anos, trabalhei sempre pelo menos 56 horas por semana, estive ativo durante 49 anos e consegui poupar 400.000 euros. Duzentos mil ainda recuperei, mas o BES e o Novo Banco ainda me devem os outros 200.000.’

A ALSB defende que as poupanças estão vencidas desde o momento em que o banco violou o perfil de risco dos clientes, prestou informações falsas e atuou ilegalmente. ‘O Estado foi responsável pela resolução do BES, tornou-se acionista do Novo Banco e tomou posse de uma garantia… Quem deve responder é quem decidiu retirar o dinheiro dessa conta escrow’, insistem.

Os lesados lamentam que ‘todos os partidos estão do lado dos lesados, exceto o PSD’, e exigem a reposição da justiça, tanto para os que nada receberam como para os que assinaram acordos sem conhecimento pleno das irregularidades.