Será agosto um mês calmo nos mercados? Na perspetiva de um dos gigantes mundiais da gestão de ativos BlackRock, numa análise semanal, considerou que os investidores que tenham essa perspetiva “podem ficar desiludidos”.
A gestora sustenta o seu ponto de vista em preços do petróleo que “estão a oscilar a cada reviravolta” no conflito do Médio Oriente, enquanto os resultados financeiros e os planos de despesas do sector da inteligência artificial (IA) “estão a impulsionar movimentos bruscos” nas ações.
“Juntamente com a reprecificação dos rendimentos dos títulos do governo, estes desenvolvimentos reforçam a nossa visão de longa data de um mundo moldado pela escassez de oferta, mantendo a inflação e os custos de empréstimo elevados. Para os investidores, o papel dos títulos do Estado mudou: menos lastro, mais rendimento”, considera a gestora.
Na perspetiva da BlackRock o aumento da inclinação da curva da yield (ou rendimentos) dos títulos do Tesouro norte-americano a 2 e 30 anos após a reunião da semana passada da Reserva Federal “reflete as crescentes preocupações” com a inflação e a “incerteza” sobre a forma como a Reserva Federal norte-americano (Fed) irá reagir. “Consideramo-lo não como algo novo, mas como uma continuação do cenário macroeconómico mais vasto que temos vindo a descrever há vários anos”, acrescentou.
“A expansão mais rápida dos investimentos em IA na história está a ocorrer num mundo moldado pela escassez de oferta, onde as restrições energéticas, o mercado de trabalho aquecido e a fragmentação geopolítica estão a mudar o foco da eficiência para a resiliência. Entretanto, os governos e as empresas de hiperescala estão a utilizar a mesma reserva de poupança, intensificando a competição pelo capital. Estas forças estão a levar os investidores a exigir retornos mais elevados para emprestar a prazos mais longos, elevando as yields reais nos mercados desenvolvidos. Esta reprecificação mais ampla sustenta o atual cenário de investimento”, sublinha a gestora de ativos.
A gestora diz ainda que a reprecificação global das yields dos títulos de longo prazo percorreu um longo caminho. “A yield dos títulos do Tesouro norte-americano a 10 anos subiu de menos de 1% há seis anos para quase 5% atualmente. As yields dos títulos alemães a 10 anos atingiram recentemente o nível mais elevado em 15 anos, e as yields dos títulos japoneses a 10 anos aproximaram-se dos 3% pela primeira vez desde meados da década de 1990”, acrescenta.
“As forças estruturais por detrás do aumento das yields dos títulos têm vindo a acumular-se há vários anos, mas intensificaram-se este ano”, considera a BlackRock. “Aquele que já era o boom de investimento em IA mais rápido da história acelerou ainda mais, com as previsões consensuais para os gastos de capital dos hiperescaladores em 2026 revistas em cerca de 30% para cima nos últimos seis meses, atingindo os 720 mil milhões de dólares”, reforçou.
“O aumento dos empréstimos soberanos e os défices fiscais persistentes, juntamente com uma mudança nos investimentos do Médio Oriente no sentido de prioridades internas, reduziram o capital disponível para investimentos no estrangeiro e intensificaram ainda mais a competição pelo capital”, descreve a gestora de ativos.
A inflação impulsionada pela escassez — amplificada pelo choque da energia e das matérias-primas no Médio Oriente — levou a uma “forte reavaliação” das expectativas da Fed, de um” afrouxamento para um aperto monetário”, provocando um aumento global das yields das obrigações, salienta a gestora de ativos. “Mais recentemente, a nova incerteza em torno da função de reação da Fed sob o novo presidente Kevin Warsh elevou o prémio de prazo”, disse a empresa.
“As yields mais elevadas alteraram tanto o papel dos títulos do governo nas carteiras como o conjunto de oportunidades para os investidores. Os títulos tornaram-se um lastro menos eficaz para as carteiras. A correlação entre os retornos diários das ações americanas e dos títulos do Tesouro a 10 anos teve uma média de 7% nos últimos cinco anos, em comparação com -43% na década anterior à pandemia. Ainda assim, as yields mais elevadas criaram oportunidades de rendimento atrativas, reforçando o nosso tema dos rendimentos duradouros. Mais de 80% do universo global de obrigações rende agora acima dos 4%, contra cerca de 20% na década anterior à pandemia”, referiu a BlackRock.
“Em vez de procurar obrigações de longo prazo, preferimos construir rendimentos duradouros através de obrigações do Tesouro de curto e médio prazo, dívida de mercados emergentes em moeda local, obrigações da zona euro de curto prazo, obrigações garantidas por hipotecas de agências e crédito público e privado selecionado com fluxos de caixa resilientes. Custos de empréstimo mais elevados também elevam o nível para as ações. Mas as empresas capazes de aumentar os lucros mais rapidamente do que os custos de empréstimo podem ainda ter um desempenho superior. No entanto, esperamos uma maior dispersão entre empresas, fortalecendo o argumento para o investimento ativo”, acrescentou a gestora.
Para a gestora o investimento em IA, os choques prolongados de oferta e o elevado endividamento público “estão a acelerar a reprecificação” das taxas de longo prazo. “Os títulos do Estado oferecem menos lastro, mas mais rendimento, alargando a oportunidade de rendimento duradouro”, acrescentou a empresa.