Associações de vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica em Espanha manifestaram hoje a sua indignação por terem sido excluídas dos encontros com o Papa Leão XIV, que se encontra em Madrid. Em comunicado conjunto, oito associações denunciaram a falta de representatividade e pluralidade nos encontros previstos com o pontífice, cujo local e hora não foram divulgados.

“Sobreviventes dos abusos sexuais na Igreja pedem ao Papa Leão XIV uma escuta verdadeiramente inclusiva e denunciam a exclusão de associações representativas” de vítimas, sublinha o comunicado. As associações alertam que a opinião pública pode interpretar erradamente que o conjunto das vítimas se sente satisfeito com a realização destes encontros, quando, na verdade, “existem diversas sensibilidades e numerosos grupos que não foram levados em conta”.

Leão XIV chegou no sábado a Madrid para uma visita de uma semana a Espanha, que incluirá passagens por Barcelona e pelas ilhas Canárias. Durante a visita, o Papa terá encontros com vítimas de abusos sexuais no seio da Igreja Católica em Espanha, conforme anunciado pelo Vaticano.

O Governo de Espanha e a Igreja Católica, através da Conferência Episcopal Espanhola (CEE), anunciaram em 08 de janeiro um acordo para a reparação de centenas de vítimas de abusos sexuais cujos casos já não podem ter resposta judicial. Ao abrigo deste acordo, será a Igreja a assumir essa reparação, incluindo indemnizações económicas ou outras reparações simbólicas.

O parlamento espanhol decidiu em 10 de março de 2022 criar uma comissão presidida pelo provedor de Justiça, Ángel Gabilondo, para investigar, pela primeira vez de forma oficial, os abusos a menores no seio da Igreja Católica. Num relatório apresentado em outubro de 2024, o provedor revelou terem sido recolhidos 674 testemunhos de abusos sexuais e apelou às instituições públicas para avançarem com formas de compensação das vítimas. O relatório estima que 1,3% da população adulta de Espanha foi vítima deste tipo de crimes, o que equivale a cerca de 445 mil pessoas.

As associações que hoje divulgaram o comunicado sublinharam que trabalharam também com a Provedoria de Justiça nos últimos anos, mas nem todas as vítimas estão reconhecidas no acordo assinado entre Governo e Igreja ou o apoiam. “O nosso apelo não procura enfrentar umas vítimas com outras. Todas merecem respeito e consideração. O que pedimos é que nenhuma pessoa sobrevivente fique relegada à invisibilidade e que o compromisso com a verdade, a justiça, a reparação e as garantias de não repetição alcancem todos os afetados, sem exclusões”, afirmam.

O Papa Leão XIV, ao chegar a Madrid no sábado, declarou que os abusos sexuais “são uma chaga ainda aberta” e que vai continuar a trabalhar pessoalmente, assim como toda a Igreja, neste problema.