
Se alguém dissesse que milhares de pessoas se juntariam num evento para ver técnicos a trocar vidros de automóveis, a reação provável seria de desconfiança. Mas foi o que aconteceu em Lisboa, num encontro organizado pela Carglass Portugal — com direito a competição cerrada entre 30 países — no MEO Arena. Foi no Best of Belron 2026 que 30 técnicos — um por país — disputaram o título de melhor do mundo na reparação, substituição e recalibração de vidro automóvel. O vencedor foi Sebastian Ernst, da Alemanha.
“Esta competição existe há mais de 20 anos”, diz Jorge Muñoz Cardoso, Diretor Geral da Carglass Portugal. “E o objetivo é simples: As empresas falam muito dos CEO, mas quem faz a magia acontecer são os técnicos”, realça, explicando que é essa a lógica desta prova: “dar palco a quem, trabalha fora dos holofotes.” Lisboa voltou a ser escolhida como anfitriã — pela terceira vez — num evento que reuniu entre duas a três mil pessoas, entre participantes, equipas e parceiros internacionais. “Não existe outra capital europeia com esta infraestrutura; com hotéis, restaurantes e aeroporto a poucos minutos, tudo acessível a pé”.
A realização do evento coincide com uma fase de expansão da operação nacional da Carglass. A empresa em Portugal fechou 2025 com 44 milhões de euros de faturação, mas “contamos passar os 50 milhões já no próximo ano”, avança o responsável. A empresa emprega 458 colaboradores — mais 58 do que no início do ano — e planeia alargar a rede para 90 agências. Trabalha ainda com mais de 95% das seguradoras em Portugal. “Isso exige rigor, transparência e zero tolerância à fraude”, acrescenta.
Outra aposta da empresa está nos salários: o salário base interno subiu para 1.030 euros, acima do mínimo nacional — algo que a empresa destaca como parte de uma estratégia de valorização dos técnicos. Se antes o trabalho era sobretudo manual, agora é tecnológico. Os para-brisas tornaram-se peças críticas dos sistemas ADAS — os assistentes de condução que travam automaticamente, mantêm o carro na faixa de rodagem ou ajustam a velocidade. Tudo depende de câmaras instaladas no vidro.
E quando este é substituído, essas câmaras têm de ser recalibradas com rigor absoluto. “Um desvio de um milímetro pode significar 100 metros na estrada”, alerta Cardoso. É aqui que entra uma nova geração de técnicos e uma aposta forte em formação e inovação. A Carglass desenvolveu, em parceria com a Bosch, uma tecnologia que permite fazer recalibrações fora das oficinas, em serviço móvel. Um investimento que rondou os 350 mil euros.
Portugal inovador
Inserida no grupo internacional Belron — presente em 40 países e com cerca de 28 mil colaboradores — a operação portuguesa é, em escala, modesta. Mas tem um papel estratégico. “Somos um país-laboratório”, admite José Muñoz Cardoso. O risco é menor, mas a capacidade de adaptação é maior. E isso tem gerado inovação exportável. Um exemplo? A entrada no segmento dos camiões, inexistente até há poucos anos, foi feita em Portugal e fez o negócio crescer 20% e acabou replicada noutros mercados europeus.
A escala global impressiona: o grupo realiza um serviço a cada três segundos, recebe cerca de 60 mil chamadas por dia. Mas, no centro de tudo, continuam a estar as pessoas — e, cada vez mais, a diversidade. Voltando a Portugal, 15% dos técnicos já são mulheres, num setor tradicionalmente masculino. E talvez seja essa a maior mudança: perceber que, num mundo onde os carros são cada vez mais inteligentes, o verdadeiro diferencial continua a ser humano.