Num mundo repleto de respostas erradas, acreditamos que a criação artística tem o poder de colocar questões complexas, questões que nem sempre admitem resposta”. Tiago Rodrigues, diretor artístico do Festival de Avignon, diz ao que vem. Ou melhor, avisa sobre o que vai estar no ‘olho do furacão’ desta edição, que assinala as oito décadas de vida do festival. “De certa forma, um espetáculo é uma questão colocada por artistas que pedem respostas ao público e é aqui que nasce o debate. Se reunir as pessoas é essencial, o dissenso é-o igualmente: é uma condição da democracia”, realça Tiago Rodrigues no programa desta edição.

De 4 a 25 de julho, Avignon agitará mentes e corações. E vai falar coreano, a língua convidada. Lee Kyung-Sung, Lee Jinyeob, Jaha Koo, Liquid Sound, Sung Im Her, Lee Jaram e Isabelle Huppert vis-à-vis Lee Hye-young, à boleia de um romance que traz o selo do Nobel da Literatura, “Despedidas Impossíveis”, da escritora coreana Han Kang.

A ‘embaixada coreana’ promete momentos tensos, num cortejo que irá desembocar numa “alvorada de questões” (L’Aube des questions), na Cour d’Honneur do Palácio dos Papas. Ou não fosse Avignon um caldeirão de perguntas, que tanto irão surgir a partir dos espetáculos, como dos encontros e do Café das Ideias. Tiago Rodrigues deixa uma pista. Durante essa alvorada, “80 questões formuladas por dezenas de personalidades do mundo artístico, cultural, político, associativo e da sociedade civil” serão como uma “porta aberta para o futuro”.

O que aí vem
Os números divulgados para esta edição dizem que haverá 30 novas criações, o que representa 64% da programação, 40% das quais em estreia mundial. Vinte e seis projetos produzidos ou coproduzidos pelo festival (55%), mais de 300 eventos, incluindo espetáculos, leituras, projeções, debates e encontros – num total de 80 – fazem também parte da edição deste ano.

A abrir estará o espetáculo “Maldoror”, criação de Julien Gosselin a partir de Roberto Bolaño e Lautréamont. O espetáculo parte do fascínio pelo mal e explora as “profundezas da violência humana”. Com uma duração de cinco horas, “Maldoror” terá oito representações, de 4 a 12 de julho, na Cour d’Honneur do Palácio dos Papas. Destaque também para o Brasil, com três presenças. A coreógrafa Lia Rodrigues, que tem a missão de dar seguimento ao programa paralelo “Transmissão Impossível”, de formação internacional, e que sucede a Mathilde Monnier, uma referência no panorama da dança contemporânea francesa e internacional. A encenadora Christiane Jatahy, que levará, ao ginásio do Lycée Aubanel, o projeto “Um julgamento”, que parte de “Um Inimigo do Povo”, de Ibsen, cocriado com o ator Wagner Moura. E Carolina Bianchi, que estreia em Avignon o derradeiro capítulo da sua trilogia sobre a violência patriarcal, “Uma luz cordial”.

A música, o circo, as exposições e as leituras-performance também marcam presença, nomeadamente o pansori – um género tradicional de narração musical da Coreia do Sul, reconhecido pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Depois das edições em que a língua convidada foi o inglês, o espanhol e o árabe, o coreano vem agora mostrar a sua faceta “local e global” e a sua influência como “soft power cultural”. Sinónimo de abertura e cosmopolitismo.

E a expressão ‘abertura’ não é aqui invocada de forma leviana. Muito recentemente, na sequência de uma entrevista à rádio pública francesa France Inter, o encenador português e diretor artístico do festival, desde 2022, sublinhou que juntar públicos diferentes não significa evitar assuntos difíceis nem apagar divergências. Pelo contrário. “O Festival de Avignon é um lugar que junta, que une, mas não em torno de um pensamento único”, afirmou Tiago Rodrigues. O que deve reunir o público, defendeu, é também o “desacordo”, que descreveu como “um tesouro da democracia.”