Esperamos a partida para o deserto de Thar, depois do almoço, perto da fronteira com o Paquistão, fechada há décadas. Ainda no ano passado, Índia e Paquistão bombardearam-se dos dois lados da fronteira. Foi a Partição, esta ferida de fronteira, que matou Gandhi. Enquanto espero, penso no deserto. Donde vem a palavra? Deve significar a perda de algo que o precedia, mas cuja memória permaneceu. Dizemos despedida, desterro, desencanto: a negação assinala aquilo que falta. Mas o que se perdeu no deserto?

Penso no vazio de que falava Simone Weil, na renúncia ao tempo, às promessas e às conquistas, no apelo ao deserto dessas coisas. “Deserto” e “aberto” não têm relação etimológica, mas parecem palavras irmãs. Verifico a etimologia latina: no deserto perde-se a trama, como o desertor que abandona o exército e fica por sua conta.

Seguimos num jeep indiano com o nome do deserto e depois somos transportados em camelos até dunas macias, de areia que escorre como líquido, tão fina é. Os camelos ajoelham-se como homens nus, de pernas longas e fortes, mas igualmente hesitantes.

O deserto silencia-nos. Instala-se uma vontade de silêncio e nisso não há imitação, mas conformação às formas de vida esparsas, ao vento, à secura. O deserto é um vazio preenchido por si mesmo. Quem o atravessa tem de o suportar assim.

O deserto é lento. Nele, até a urgência é lenta. Pernoitamos ao relento. O céu sem luar deixa-se esmiuçar. Acompanham-nos dois guias: Nabu, muçulmano, e Akam, hindu. São homens jovens, de bom sorriso, e conversamos sobre a vida. Akam foi pai há pouco tempo e está feliz. Conta-nos que conheceu a mulher no próprio dia do casamento, arranjado pelas famílias, vindas de aldeias diferentes, mas próximas. Habituados a turistas, explicam como também lhes soam estranhas as nossas histórias de casamentos por amor e divórcios por desamor. “Fair enough.” Partilhamos as duas cervejas que trazíamos. É bom perceber que há muitas maneiras de dar sentido à vida.

A aurora pede passos pelas dunas, sobre o rasto arrefecido dos da véspera. Aqui, o nascente fica nas costas da direcção de Meca. Ao longe adivinha-se Jaisalmer, ou pelo menos a sua direcção. Chamam-lhe a cidade dourada não porque a pintem assim, como Jodhpur, a cidade azul, ou Jaipur, a cidade rosa, mas porque o arenito e o calcário de que é feita têm a cor do deserto.

Quando finalmente saímos do deserto, depois de horas de travessia silenciosa em camelos e jeeps com o nome do deserto, o guia diz: “ok, let’s go”, e liga o rádio. Sorrimos, a ouvir música depois disto tudo.