O telefone vibra. É João Garcia, o consagrado alpinista nacional que está no Nepal a responder de viva voz às perguntas do Jornal Económico. O discurso, calmo, revela o traquejo de décadas a enfrentar o silêncio da montanha. Há 27 anos, a 18 de maio, tornou-se o primeiro português a atingir o topo do mundo, o Evereste, o cume mais elevado do planeta com 8848 metros.
Em 2013, seria Maria da Conceição, a primeira mulher portuguesa a conseguir dominar o gigante asiático. “Não houve euforia. Houve silêncio”, recorda, acreditando que o cume não é o fim, mas metade do caminho. Lembra-se do cansaço e de pensar na descida. “É tão perigosa, quanto a subida”, diz. Cansaço também é o adjetivo escolhido por João, revivendo que deveria estar a 50% das suas capacidades devido ao ar rarefeito, uma vez que escalou com a força dos seus pulmões sem recurso a oxigénio artificial.
Mas o que leva alguém a desafiar os limites? A alma de Garcia pertence à montanha. Iniciou escalada na Serra da Estrela. Tinha 16 anos. Move-o a superação. E, tal como acontece na filosofia de outros desportos, cuja ambição passa ou por marcar mais golos ou correr mais rápido… No seu caso, é subir mais alto. É um desafio pessoal. João Garcia reconhece que muitos procuram no alpinismo “comercial” a conquista de um “troféu”. Atualmente, também guia outros nesta aventura de testar o impossível, “bebo desse veneno”, admite, referindo-se às expedições vendidas em grupo, dizendo ainda que muitos dos que almejam participar desta aventura não têm a plena noção do que os espera.
Porém, encontrou neste papel um novo sentido para a sua vida: “Ajudar cada um a alcançar o seu próprio Evereste.” Maria da Conceição acredita na mesma máxima: “Os maiores cumes não são aqueles onde chegamos, mas os que ajudamos outros a alcançar”. No seu caso, o que a empurrou para a montanha foi a vida. A vida dos outros. “Era a única forma de manter o projeto social que criei, a Fundação Maria Cristina. Foi a saída para continuar a dar educação às crianças”, confessa. Lá em cima, perto do céu, gritou ao mundo por ajuda. Ali no silêncio junto às nuvens. Foi ouvida.
A época alta de ascensões ao Monte Evereste já começou. A chamada “janela de oportunidade” surge todos os anos na primavera, entre início e final de maio. Contudo, este ano arrancou com um contratempo inesperado: “um enorme bloco de gelo acima do acampamento base está a bloquear a rota de subida”, conta o alpinista. Segundo o Turismo do Nepal, 425 estrangeiros já obtiveram licença para subir ao cume.
Quem investiu tempo e dinheiro nesta aventura; e quer chegar mesmo ao topo, desembolsou entre 40 mil dólares, o pacote mais económico e 120 mil dólares, uma expedição de luxo, Com estas notícias, decerto está a ver o sonho a congelar. Este é um negócio de muitos milhões. As equipas especializadas conhecidas como “médicos do gelo” e responsáveis por fixar cordas e escadas, não conseguiram ainda encontrar um novo caminho para contornar um bloco de gelo com 30 metros de altura. Resta aguardar que derreta.
Este atraso empurra o calendário da temporada várias semanas para trás. “Com uma janela de bom tempo curta, centenas de alpinistas poderão concentrar-se lá em cima num período reduzido. Só podem subir 200 pessoas por dia. Os atrasos na abertura da rota vão criar engarrafamentos”, vaticina João Garcia. Se o gelo não derreter, em breve poderá surgir uma foto igual à de Nirma Purja que mostrava, em 2019, uma fila gigante na rota para o topo do Evereste. Ali na zona da morte, acima dos 8 mil metros, o corpo luta para sobreviver. Valerá a pena arriscar a espera? Tanto Garcia como Conceição admitem que o Evereste está mais comercial. Um posicionamento que pode roubar à montanha o desafio de a superar, transformando-a num spot acessível apenas a quem pode pagar.