Uma amiga contou-me que visitou a Igreja da Graça, em Lisboa, e descobriu que todos os painéis informativos estão em inglês, não existindo um único em português. Achou a situação de tal forma absurda que apresentou uma reclamação.
Há uma profunda ironia no facto de um espaço como a igreja apenas dialogar com estrangeiros, transformada numa porta de entrada turística que não valoriza sequer os portugueses que a visitam. Esta situação é apenas uma parte do problema. A zona histórica de Lisboa já há muito que se rendeu à língua inglesa. É raro andar pelas ruas de Lisboa sem que alguém me pergunte primeiro: fala português?
Quem cresceu em Lisboa, testemunha a transformação de uma cidade bairrista e repleta de tradições numa montra turística, com lojas de luxo de impossível alcance para a maioria dos portugueses, em que o termo “autenticidade” virou um produto de marketing.
O detalhe de colocar a língua portuguesa em segundo plano demonstra bem como já se normalizou a perda de um território em que, para podermos sobreviver nele, temos de lhe tirar o máximo proveito enquanto postal turístico.
Mas, ao mesmo tempo que absolvemos os portugueses que são vítimas destes fenómenos, não podemos ignorar que muitos contribuem ativamente para esse estado das coisas: desde o senhorio que incentiva Airbnb, aos comerciantes subservientes aos turistas, até ao próprio município que não para de aprovar mais hotéis.
A verdade é que esta não é uma horda de bárbaros que invadiu Lisboa, mas uma escolha coletiva com custos distribuídos de forma desigual. Como portugueses, estamos cada vez mais ausentes da nossa própria cidade, alguns porque são forçados a isso, outros porque escolhem contribuir para esvaziar a cultura lisboeta e portuguesa. E esta é uma contradição ativa que escolhemos não resolver.
Não ignoro que é difícil termos esta discussão nos dias de hoje, quando a extrema-direita sequestrou inúmeros argumentos e usa slogans como “Portugal para os portugueses”, e brada que a culpa é dos imigrantes mais vulneráveis. Mas tudo o que vivemos neste momento na cidade mostra que o verdadeiro problema está no modelo económico profundamente irresponsável, e os estrangeiros e turistas são instrumentalizados por ele tanto quanto os portugueses.
Já estamos há demasiado tempo a permitir que narrativas erradas dominem este tema, com consequências culturais reais. Precisamos reclamar a cidade e o tipo de cidade em que queremos viver, sem soar defensivos.