A ciência económica é interessante porque obriga a distinguir e a valorizar indicadores com diferentes horizontes temporais, nomeadamente entre indicadores lag e indicadores lead. Enquanto os índices de preços no consumidor e no produtor mais recentes refletem uma realidade que começou há quase mês e meio, existem indicadores muito mais atuais, de alta frequência, atualizados a cada momento, como as cotações do petróleo, das margens de refinação ou das obrigações do tesouro americano, que permitem antecipar melhor a evolução da inflação, das taxas de juro e da própria economia.

Esta semana, o índice de preços no consumidor nos EUA caiu 0,4% em junho, quando, no mês de maio, a variação mensal tinha sido positiva de 0,5%. Em termos homólogos, ou seja, relativamente ao mesmo mês do ano passado, o IPC desacelerou para 3,5%, quando eram esperados 3,8%, após os 4,2% de maio, o valor mais elevado desde maio de 2023. Esse aumento da inflação ameaçou uma subida das taxas de juro e ditou um discurso hawkish de Kevin Warsh na reunião de junho. A taxa de inflação, excluindo alimentos e energia, abrandou para 2,6%, abaixo dos 2,8% esperados e dos anteriores 2,9%.

Também o índice de preços no produtor registou uma variação mensal negativa, caindo 0,3% em junho face a maio, quando era esperado que se mantivesse inalterado, enquanto o valor elevado de maio foi revisto em baixa de 1,1% para 0,6%. Em termos homólogos, desacelerou para 5,5%, face aos anteriores 6% de maio, entretanto revistos em baixa de 6,5%. Também aqui, excluindo energia e alimentos, o índice de preços nas fábricas norte-americanas desacelerou menos, o que pode indiciar que a inflação esteja mais ancorada do que o estimado pelo mercado. Ou seja, uma inflação mais ancorada e a subida do barril de petróleo impulsionam as taxas de juro. Além disso, as margens de refinação continuam muito mais elevadas do que antes do conflito, iniciado a 28 de fevereiro, apesar de o petróleo ter recuado, no final de junho, para níveis semelhantes aos anteriores ao conflito entre os EUA, Israel e o Irão.

Habitualmente, as margens de refinação são de 10 dólares por barril na gasolina e de 20 dólares no gasóleo, dado que este é mais crítico para a atividade económica. Atualmente, porém, o crack spread da gasolina aproxima-se dos 40 dólares por barril e o do gasóleo dos 70 dólares, valores que espelham os receios dos investidores quanto a uma eventual escassez futura e que podem impulsionar os preços dos combustíveis pagos pelas famílias e pelas empresas nas bombas de abastecimento.

Enquanto isso, o galão de gasolina nos EUA, cerca de 3,8 litros, desceu em junho de 3,06 dólares para 2,90 dólares, uma queda de mais de 5%, explicando boa parte da descida mensal do índice de preços no consumidor. Todavia, nos primeiros quinze dias de julho, já subiu mais do dobro do que recuou em junho, cotando neste momento nos 3,31 dólares por galão, uma subida de quase 15%. Esta evolução ameaça pressionar a inflação em julho, quando os dados forem divulgados em meados de agosto, devendo muito provavelmente endurecer o discurso do presidente da Fed na próxima reunião, a 30 de julho.

Assim, os dados lag do IPC e do IPP e os dados lead das cotações do petróleo e, sobretudo, das margens de refinação influenciam de forma diferente as perspetivas para a evolução das taxas de juro. Quer antecipar a evolução das taxas de juro? Olhar para as margens de refinação pode ajudar a antecipar e a compreender melhor o discurso de Kevin Warsh na reunião de 30 de julho. Também os pedidos semanais de desemprego, os índices PMI, as yields, os spreads de crédito e os transportes marítimos constituem importantes indicadores lead da evolução da economia.

Esta não é apenas uma questão económica. A administração americana tem todo o interesse em pôr fim ao conflito no Médio Oriente, já que os americanos votam com a carteira e uma gasolina mais cara é sinónimo de sondagens mais desfavoráveis para as midterms de novembro.