A poucos dias do fim do Campeonato do Mundo de 2026, há uma certeza que já se impõe fora das quatro linhas: esta poderá ser a edição mais poluente da história do futebol.
Quando a FIFA apresentou o torneio organizado por Estados Unidos, Canadá e México, fê-lo sob a bandeira da sustentabilidade. A utilização de estádios já existentes — em contraste com o modelo do Catar — foi apontada como prova de uma nova consciência ambiental. Mas esse argumento tem vindo a perder força à medida que surgem estimativas mais abrangentes sobre o impacto real do evento.
Estudos recentes — nomeadamente da consultora ambiental Greenly — apontam para uma pegada carbónica na ordem dos 7,8 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, mais do dobro da registada em 2022. Trata-se de um valor que aproxima o torneio das emissões anuais de países inteiros ou de milhões de automóveis em circulação. Como nota o El Economista.es, a reutilização de infraestruturas não compensa o efeito de um Mundial “maior e mais disperso”, onde a escala se tornou o verdadeiro problema.
A explicação está longe de ser complexa. A expansão para 48 seleções — mais 16 do que na edição anterior — aumentou o número de jogos para 104 e, sobretudo, multiplicou as necessidades logísticas. Três países, 16 cidades e milhares de quilómetros de distância entre sedes criam um cenário inédito de mobilidade global.
Segundo o InfoMoney, o torneio poderá atingir valores próximos dos 9 milhões de toneladas de emissões, quase o dobro da média das últimas edições. Já o ClimaInfo sublinha que esta edição “deverá ser a mais poluente da história”, com uma pegada que duplica a do Catar.
O principal responsável não são os estádios, mas sim o transporte. Segundo a Greenly, cerca de 85% a 87% das emissões totais estarão associadas ao transporte, com destaque para os voos internacionais e domésticos. Ou seja, a esmagadora maioria das emissões estará associada às deslocações de equipas, adeptos, jornalistas e estruturas logísticas. A geografia continental do torneio — com cidades separadas por milhares de quilómetros — torna inevitável o recurso intensivo à aviação, anulando parte dos ganhos obtidos com a reutilização de infraestruturas.
Há, neste contexto, um paradoxo difícil de ignorar. Num momento em que o discurso oficial do desporto se alinha com metas climáticas e compromissos de neutralidade carbónica, os grandes eventos continuam a crescer em dimensão, audiência e ambição comercial. Mais equipas significam mais jogos; mais jogos implicam mais viagens; e mais viagens traduzem-se, inevitavelmente, em mais emissões.
Isto porque à medida que o aquecimento global se intensifica, competições como esta tornam-se mais dependentes de soluções energéticas intensivas, como sistemas de refrigeração em estádios ou pausas para hidratação. O futebol adapta-se ao clima, mas contribui simultaneamente para o agravar.
O Mundial de 2026 poderá, assim, marcar um ponto de viragem. Não pelo que acontece em campo, mas pelo que revela fora dele: que a sustentabilidade no desporto global não depende apenas de infraestruturas “verdes”, mas sobretudo da escala — e dos limites — que se está disposto a impor ao próprio espetáculo.
A resposta, para já, continua em aberto — mas os números já falam mais alto do que qualquer apito final.