Lisboa guarda um tesouro único: uma coleção de cerca de 6.000 moldes da calçada artística portuguesa, preservados num armazém municipal em Alvalade. Desses, 3.000 são considerados originais, com os mais antigos datados do século XIX. A Câmara Municipal de Lisboa (CML) anunciou a criação de um centro interpretativo para valorizar este acervo, que deverá estar pronto até 2029.
A vereadora de Projetos e Obras em Espaço Público, Joana Baptista, afirmou à Lusa que o projeto está em desenvolvimento e que a coleção será integrada no futuro centro. “Estamos, neste momento, a desenvolver o projeto e é um compromisso de mandato, portanto, até 2029 quero apresentar em Alvalade esta coleção de moldes já integrada no centro interpretativo da calçada artística portuguesa”, disse.
Moldes que contam a história de Lisboa
Entre os moldes, maioritariamente em madeira, encontram-se desenhos de caravelas, flores, borboletas e até a sigla CML. O historiador Rui Matos, um dos responsáveis pela inventariação, explica que o armazém foi criado entre 1952 e 1954 e estava “um pouco caótico” até a equipa começar a organização em 2019.
O molde mais antigo identificado é o “Mar Largo”, da Praça do Rossio, datado de 1848-1849, idealizado por Eusébio Furtado. Este padrão, que simula ondas pretas e brancas, foi replicado décadas depois no calçadão de Copacabana, no Rio de Janeiro. A historiadora Sofia Tempero acrescenta que a execução original contou com mão-de-obra de prisioneiros do Castelo de São Jorge.
Património único e valorização profissional
A calçada artística portuguesa, criada em meados do século XIX, é um dos ícones turísticos de Lisboa, juntamente com os azulejos e o fado. No entanto, a profissão de calceteiro está em risco de extinção: o município teve cerca de 400 calceteiros na década de 1940, mas hoje conta com apenas 20. Rui Matos alerta para as condições difíceis e a baixa remuneração, defendendo uma carreira especial para atrair jovens.
A CML já iniciou novos recrutamentos para ter 40 calceteiros e garante que a manutenção da calçada tem sido feita, incluindo a reparação de buracos. Joana Baptista destaca a diferença entre a calçada artística, feita com “outra excelência técnica, que é confortável e segura”, e a calçada de vidraço, que tende a ficar polida e escorregadia.
A coleção de moldes foi inventariada com fotografias de alta resolução, desenhos à escala e modelação 3D. Uma base de dados online será lançada em breve, permitindo saber, a partir de um molde, se ele foi utilizado nos Restauradores, no Rio de Janeiro ou em Macau. A arte e o saber-fazer da calçada portuguesa são candidatos a património mundial da UNESCO.