A febre da inteligência artificial tornou ASML na maior empresa europeia. Não fabrica semicondutores ou modelos de linguagem. Produz máquinas complexas, do tamanho de uma sala, que chegam a pesar 200 toneladas (as mais modernas). São sistemas de litografia com mais de 10 metros de comprimento, três a quatro metros de largura e outros tantos de altura. Utilizam ultravioleta extremo para projetar os padrões dos circuitos nas bolachas de silício, a base para a criação de chips, em camadas que se sobrepõem e que têm de estar alinhadas ao nanómetro. É essencial e, no caso da produção dos semicondutores mais avançados, a empresa neerlandesa é o único fornecedor mundial.

Com a procura por chips a galope, também a demanda pelas máquinas da ASML aumentou. E a valorização da empresa também. Desde o início do ano, as ações negociadas em Amesterdão acumulavam uma subida próxima de 70%. Esta semana apresentou os resultados do segundo trimestre, o que motivou um salto de 4%, depois corrigido. Mesmo assim, a capitalização bolsista manteve-se próxima de 600 mil milhões de euros.

É a maior cotada europeia desde 15 de outubro, quando suplantou a Novo Nordisk. E a 3 de junho ultrapassou mesmo o máximo histórico da farmacêutica dinamarquesa, encerrando a sessão bolsista com uma capitalização de 576,5 mil milhões de euros. A segunda maior empresa, o gigante financeiro HSBC, vale quase metade, um valor próximo de 300 mil milhões de euros. Segue-se outra farmacêutica, a Roche, com perto de 290 mil milhões de euros. A ASML vale aproximadamente tanto como as duas empresas que a seguem no ranking, em conjunto.

Desde o início do ano, subiu quatro posições no ranking das maiores capitalizações do mundo. É a 20ª. Se olharmos para o percurso desde agosto de 2025, a subida é de 16 lugares.

Continua, porém, longe da valorização das “sete magníficas”. A menos valiosa delas, a Tesla, vale mais do dobro da ASML. Nvidia e Apple aproximam-se de cinco biliões de dólares (4,3 biliões de euros) cada. Outro campeonato.

Resultados em alta

Os resultados do segundo trimestre da ASML, agora apresentados, confirmaram que o aumento da procura associada à inteligência artificial já está a passar das encomendas de processadores para o investimento industrial. As vendas aumentaram 22% em termos homólogos, para 9,3 mil milhões de euros. A empresa vendeu 91 sistemas de litografia, incluindo cinco usados, contra 76 um ano antes. As máquinas novas aumentaram de 67 no primeiro trimestre para 86. O lucro subiu 31%, para 2,9 mil milhões.

Pela segunda vez no ano, que vai no sétimo mês, a administração reviu em alta as previsões para 2026. As vendas deverão situar-se entre 43 mil milhões e 45 mil milhões de euros, acima do intervalo anterior de 36 mil milhões a 40 mil milhões. A margem bruta deverá ficar entre 54%, o nível a que se encontra atualmente, e 56%. Para o terceiro trimestre, preveem-se receitas entre 11 mil milhões e 12 mil milhões de euros.

“Os investimentos contínuos em inteligência artificial e o progresso constante nas tecnologias de IA estão a impulsionar a procura por chips avançados de lógica e memória, fortalecendo ainda mais as perspetivas de crescimento da indústria de semicondutores”, explica Christophe Fouquet, CEO da ASML. “Os nossos clientes continuam a acelerar os planos de expansão da capacidade, proporcionando maior visibilidade sobre a procura de longo prazo”, acrescenta.

A ASML está perto de esgotar a capacidade para 2027 e já tem “um grande número de encomendas” para 2028.

Para responder à procura, a ASML pretende aumentar em 30% a produção anual de dois tipos de sistemas que produz, no próximo ano, e voltar a aumentá-la noutros 30% em 2028.

Cada máquina integra milhares de componentes e depende de fornecedores especializados, como a alemã Zeiss. Pode demorar cerca de um ano a ser produzida e a montagem, o transporte (por blocos) e a instalação também condicionam as entregas. A capacidade da ASML tornou-se um dos possíveis estrangulamentos da expansão mundial dos centros de dados.