O Governo português quer recentrar a atuação do Estado nas suas funções soberanas essenciais e reforçar o papel da regulação e da supervisão económica para impulsionar a produtividade. A intenção foi manifestada pelo Ministro de Estado e das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, durante o discurso de encerramento da Conferência Lear Lisboa sobre Concorrência & Regulação.
No seu discurso, o governante assumiu que Portugal continua a enfrentar “constrangimentos importantes à sua competitividade económica”, apontando o dedo às “elevadas barreiras à entrada” e aos “encargos regulatórios e administrativos excessivos” que afastam novos operadores do mercado nacional. Segundo o ministro, os novos concorrentes deparam-se frequentemente com requisitos de licenciamento complexos, procedimentos morosos e custos de contexto significativos.
“Estas barreiras limitam o dinamismo, reduzem a escolha dos consumidores e, em última análise, enfraquecem a produtividade e o crescimento”, alertou, justificando assim a urgência da reforma do Estado em curso, focada na simplificação, desmaterialização e redução da burocracia.
“O nosso objetivo é claro: simplificar processos, reduzir a burocracia, digitalizar procedimentos e criar um ambiente económico mais aberto e competitivo”, afirmou.
Combate à perceção do “Estado produtor” e nova governance pública
Joaquim Miranda Sarmento aproveitou o evento para contrariar a ideia generalizada na sociedade civil de que o Estado deve produzir diretamente bens e serviços em setores estratégicos.
O ministro defendeu que uma economia de mercado funcional, assente numa regulação forte e independente, constitui um dos instrumentos mais eficazes para salvaguardar o interesse público.
“Persiste a ideia em muitos quadrantes da sociedade de que o Estado deve produzir diretamente bens e serviços em sectores-chave, em vez de definir regras e garantir uma concorrência justa. Temos de enfrentar esta perceção. Uma economia de mercado funcional, suportada por uma regulação forte e independente, não está em contradição com o interesse público — é, pelo contrário, um dos seus instrumentos mais eficazes”, disse.
Por outro lado defendeu que “a criação da União Bancária, incluindo o reforço dos quadros de supervisão, é um exemplo claro de como reformas institucionais podem melhorar a governação, a responsabilização e a estabilidade”.
Assumindo que falhas graves de governo societário no passado prejudicaram acionistas e contribuintes, o titular da pasta das Finanças destacou as reformas institucionais em curso no Setor Empresarial do Estado (SEE). O Executivo prepara-se para aprovar “em breve” a revisão do regime jurídico do SEE e do Estatuto do Gestor Público. O objetivo passa por assegurar a separação de competências, garantir a autonomia de gestão, reforçar a transparência e assegurar a “não interferência política” na atividade pública.
“Também o trabalho que estamos a fazer ao nível do Setor Empresarial do Estado, em particular, quanto à revisão do seu regime jurídico e do Estatuto do Gestor Público, que deverá ser aprovado em breve, e que procura assegurar a separação das competências, promover a autonomia de gestão, responsabilização e transparência e garantir a não interferência política na atividade do Setor Empresarial do Estado, reforçando assim a confiança dos cidadãos na governance das instituições públicas”
Especialização nos tribunais e Inteligência Artificial
A crescente complexidade técnica e económica dos processos regulatórios motivou também um apelo ao setor judicial. Recordando as recomendações do grupo de trabalho do Governo sobre a independência dos reguladores, o ministro defendeu o reforço da especialização e estabilidade dos juízes no Tribunal da Concorrência, Regulação e Supervisão, dotando-os de apoio técnico especializado para assegurar a previsibilidade e a segurança jurídica.
“Uma das principais recomendações do grupo de trabalho do Governo sobre a independência dos reguladores é reforçar a especialização e a estabilidade dos juízes no Tribunal da Concorrência, Regulação e Supervisão, incluindo a disponibilização de apoio técnico especializado. Isto é essencial para garantir segurança jurídica, aplicação eficaz da lei e credibilidade das decisões regulatórias”, disse.
Adicionalmente, Miranda Sarmento preconizou uma “transformação profunda” e uma “reinvenção” organizacional das próprias entidades reguladoras. O plano inclui a transição para modelos de funcionamento em rede, a aposta na qualificação de recursos humanos, a reengenharia de processos e a integração de novas tecnologias, designadamente a Inteligência Artificial.
“A atualidade exige uma transformação profunda da organização e estrutura da administração pública, bem como um aumento do nível de qualificação dos recursos humanos; a reengenharia de processos e procedimentos; e a redefinição dos quadros legais existentes. Todos estes desafios sublinham um ponto essencial: a qualidade da regulação tem um impacto direto no desempenho económico”, referiu.
O custo da má regulação
Para ilustrar o impacto real destas fragilidades, o ministro evocou dados de um estudo de 2019 da Universidade do Minho. O documento estima que as insuficiências na regulação e na respetiva qualidade provocaram perdas anuais de 0,32 e 0,22 pontos percentuais, respetivamente, no crescimento do PIB per capita nacional.
“Estes não são números abstratos. Ao longo do tempo, representam uma perda substancial de rendimento, investimento e oportunidades para os nossos cidadãos e empresas”, enfatizou.
O governante concluiu assegurando que o compromisso do Executivo não passa por uma “desregulação por si só”, mas sim por uma “melhor regulação” — capaz de proteger os consumidores, atrair investimento e dotar as entidades reguladoras da autonomia e dos recursos necessários para cumprirem cabalmente os seus mandatos.