Os EUA estão a apoiar o iene, divisa japonesa que atravessa uma forte desvalorização e que arrisca pressionar ainda mais os títulos do Tesouro norte-americano, há muito numa trajetória evidente de subida. Intervenções conjuntas são raras e importa compreender o que motivou esta, como foi feita e o que significará para os mercados.

 

Porque está o iene a cair?

Anos de dificuldades na economia japonesa contribuíram para este resultado. Uma população envelhecida, crescimento anémico e, mais recentemente, o disparo nas cotações internacionais da energia pressionaram a moeda nipónica, que atingiu mínimos de 40 anos contra o dólar esta semana, quando chegou a 163 ienes-dólar.

O Banco do Japão (BoJ) há muito que tenta estimular a economia por via de uma política monetária ultra acomodatícia, com taxas de juro negativas durante mais de uma década. Desde então, uma série de subidas trouxe o indicador de referência a 1%, valor mais alto desde setembro de 1995.

Esta fraqueza da moeda local tem ajudado a estimular sectores como o turismo, bem como limitado os efeitos das perturbações nas cadeias de valor e logística globais dos últimos anos nas exportações. Por outro lado, os bens importados tornam-se cada vez mais caros e, sendo o Japão uma nação arquipélago com elevada dependência externa, isto tem afetado os orçamentos familiares.

O que levou à intervenção dos EUA?

Sendo aliados próximos, os EUA não agiram por mero altruísmo. Pelo contrário, sendo o Japão o maior detentor de títulos do Tesouro norte-americanos, o risco para a maior economia do mundo era significativo.

Por um lado, a desvalorização do iene cria incentivos para o BoJ vender dólares para reforçar a sua moeda. Isto criaria pressão sobre os títulos norte-americanos, empurrando as yields para cima e agravando ainda mais o custo da dívida, que já ultrapassa 39 biliões de dólares (33,8 biliões de euros).

Por outro, a perda de valor da moeda japonesa ameaça o chamado ‘carry trade’, em que investidores contraem dívida em mercados com juros muito baixos (como o japonês) para financiar posições com juros mais elevados, transformando em lucro esse diferencial de taxas.

“Um iene estável é importante não só para os EUA, mas para toda a região”, resumiu o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent.

Como intervieram os EUA para ajudar a estabilizar a moeda?

Na conferência de imprensa da semana passada em Camp David, Bessent deixou à vista dos jornalistas e foto repórteres a confirmação da ação norte-americana: “Lista a fazer: comprar 5 a 10 mil milhões de ienes”, lia-se claramente no bloco de notas do líder do Tesouro, que ficou (suspeitamente) à vista de todos.

O que se seguiu foi a primeira intervenção coordenada de dois países do G7 nos mercados cambiais desde 2011, quando um forte terramoto e subsequente tsunami deixaram o Japão em estado de calamidade.

As fontes de mercado apontam uma venda de euros contra o iene pela Reserva Federal, sendo incerto se o banco central estaria já a vender dólares também. É também incerta a magnitude da intervenção americana, sendo que o banco ING duvida do montante inscrito nas notas de Bessent, apontando a um valor mais baixo.

Sendo a divisa mais negociada nos mercados a seguir ao dólar e ao euro, uma desvalorização mais agressiva do iene arrisca uma amplificação nos mercados que poderá resultar em perdas mais consideráveis, apontam os analistas.

O que acontecerá no futuro próximo?

Apesar da intervenção norte-americana, o consenso entre economistas é que o principal fator para um iene mais forte seria um aperto da política monetária por parte do BoJ – sobretudo se inserido numa tendência mais alargada de recuperação da credibilidade por parte do banco central, que há muito tem deixado a inflação correr acima dos juros.

A leitura mais recente do indicador de preços no Japão mostra uma inflação homóloga de 1,7% em junho, mas em igual mês do ano passado o indicador registava 3,3%.

A juntar a isto, continua a existir um diferencial considerável entre os juros diretores na economia nipónica e outras economias mais avançadas como os EUA e a zona euro, o que contribui para a fraqueza sistémica e persistente do iene.

Assim, e além de uma subida das taxas no Japão, o iene poderia beneficiar com uma descida dos juros nos EUA e UE – um cenário cada vez mais improvável. Numa nota mais positiva, os indicadores macro nipónicos são sólidos, com uma dívida em níveis proibitivos (248,7% do PIB no final de 2025), mas em trajetória descendente e um superavit orçamental previsto para este ano.