No século XIV, a Quinta das Lágrimas, em Coimbra, foi o local dos encontros românticos de D. Pedro e D. Inês. A história de amor trágica do século XIV que Luís Vaz de Camões imortalizou no III Canto dos Lusíadas, e que hoje continua a perdurar no imaginário português, é o mesmo local onde há 30 anos nasceu num edifício do século XVIII o hotel de cinco estrelas Quinta das Lágrimas. O contexto histórico e geográfico tornam-no num local singular e inovador por ter sido, há três décadas, um dos primeiros hotéis históricos a abrir fora de Lisboa e Porto.
“Apesar de Coimbra ser uma cidade com muito património, muita cultura e pontos de interesse, quando inaugurámos o hotel ainda estava fora dos roteiros turísticos”, recorda Miguel Júdice, administrador delegado da Quinta das Lágrimas. Mais visitada e mais turística que então, Coimbra ainda hoje tem uma oferta hoteleira deficitária. “A cidade não abriu hotéis nos últimos dez anos”, diz.
Como negócio, a Quinta das Lágrimas tem tido “anos muitos bons”, diz Júdice, sem revelar resultados financeiros. A taxa de ocupação nos últimos dois anos está na ordem dos 75%, sendo que a maioria dos visitantes são portugueses, o que é explicado “pela componente histórica do local”, seguidos dos turistas norte-americanos. “O cliente estrangeiro que nos visita é aquele que vem fazer percursos por Portugal, não é tanto como os turistas do Algarve, que ficam uma semana no hotel. A nossa estadia média é de dois dias”, revela.
O hotel, que teve a última renovação em 2020, tem hoje 55 quartos, com diversas tipologias, está dividido por três alas e é membro da rede Small Luxury Hotels of the World. Para este ano estão previstos investimentos na ordem dos 150 mil euros no hotel e 500 mil na valorização dos jardins e património cultural da Quinta das Lágrimas. Aliás, só os jardins de 12 hectares da Quinta das Lágrimas – que estão abertos ao público há cerca de 100 anos – recebem 50 mil visitantes por ano, entre turistas e escolas, para percorrerem os mesmos locais onde Pedro e Inês fizeram juras de amor.
2026 de mau começo
Este ano não começou da melhor maneira para o negócio da Quinta das Lágrimas. As tempestades que assolaram o centro do país – mas que não atingiram o hotel, “a não ser com a queda de uma árvore ou outra” – e a guerra no Médio Oriente tiveram influência. “Os primeiros dois meses do ano estiveram abaixo das expectativas, mas já estamos a conseguir recuperar”, diz Miguel Júdice. Contudo, o resto do ano é ainda uma incógnita. “Vamos aguardar pela época alta”, aponta. Mesmo assim, Júdice acredita que vai chegar ao final do ano com resultados iguais aos de 2025, “ou mesmo ligeiramente acima, com um crescimento a um dígito e não a dois como estávamos a prever”.
À pergunta como têm reagido ao aumento do custo das matérias-primas e da energia, Miguel Júdice é perentório: “Tudo está a subir de uma forma que não é acompanhada pela subida dos preços que praticamos e as margens estão a ficar mais pequenas”. Aproveita a conversa e envia recados. “Em Portugal, todos os negócios que não sejam muito materializados são muito difíceis, pelas margem curtas que têm, não só pelos custos de contexto, mas pelos impostos sobre o trabalho, e as taxas e taxinhas que existem.” E acrescenta: “não há muita margem para quem cumpre a lei e paga os seus impostos”. Para além das estadias e da restauração – os dois restaurantes do hotel contribuem com metade da receita do negócio – e dos jardins (cobram 3,5 euros por visitante), existem ainda os eventos, congressos e casamentos. “Uma componente importante do negócio”, frisa Júdice, que contribui com 34% da faturação total.
Dependentes da mão de obra estrangeira
“Portugal não tem recursos humanos para o turismo porque não se formam profissionais, e não há escolas de hotelaria suficientes”, diz Júdice numa análise ao que corre pior no turismo no país. “Não se acompanhou a formação de recursos humanos para a quantidade de novos hotéis e para o número de visitantes dos últimos 10 a 15 anos. Se calhar os portugueses também não querem ir para o setor, mas isso é outra coisa. Portanto, o turismo em Portugal vive absolutamente dependente da mão de obra estrangeira”.
Apesar das dificuldades, afirma que a localização da Quinta da Lágrimas lhe dá alguma vantagem. “Somos um peixe graúdo num lago pequeno aqui em Coimbra, temos reputação e as pessoas da região veem-no como um sítio aspiracional onde gostariam de trabalhar.”
Depois de comemorarem os 30 anos em 2025, este ano o hotel vai assinalar sete séculos da história do local onde hoje está a Quinta das Lágrimas. “Há 700 anos foi redigido um documento do pedido da Rainha Santa Isabel para que fosse canalizada a água de uma fonte, que ainda hoje existe no nosso terreno, para o Convento de Santa Clara- A-Velha, que fica a 500 metros do hotel.” Uma celebração que prevê encontros e palestras, e o lançamento de uma cerveja medieval comemorativa.