O governador do Banco de Portugal (BdP), Álvaro Santos Pereira, reconheceu esta quarta-feira que o conflito no Médio Oriente terá um impacto significativo nos preços, dada a perturbação já causada em vários setores. A declaração foi feita durante a apresentação do relatório de estabilidade financeira do BdP, no mesmo dia em que o Banco Central Europeu (BCE) alertou para um otimismo excessivo dos investidores face às tensões geopolíticas globais, com destaque para o conflito EUA/Israel-Irão.
Santos Pereira admitiu que a guerra representou um choque adverso significativo no lado da oferta, com disrupções que já atingiram vários setores. Segundo o governador, é expectável mais pressão nos preços, mesmo que a navegação no estreito de Ormuz seja retomada em breve.
O BCE, conforme destacou, está a avaliar a evolução dos preços e a verificar a existência de efeitos de segunda ordem, bem como as suas repercussões nos salários, antes de tomar uma decisão. “Isto será levado em conta na próxima reunião”, garantiu.
Na mesma linha, o governador irlandês Gabriel Makhlouf afirmou em Dublin que ainda não viu evidências de efeitos de segunda ordem, mas não descartou a possibilidade de estarem a materializar-se. “Não tenho visto efeitos de segunda ordem a emergir, mas isso não quer dizer que eles não existam. Iremos olhar para isso na próxima reunião”, declarou, sem antecipar a decisão do BCE em junho. A autoridade monetária europeia volta a reunir a 10 e 11 de junho.
BCE alerta para otimismo
Os comentários de Santos Pereira e Makhlouf coincidiram com a divulgação do relatório bianual de estabilidade financeira do BCE, que mostra preocupação com o risco de uma correção abrupta nos mercados, fruto da incerteza e tensões geopolíticas, numa altura em que os índices bolsistas continuam a quebrar máximos históricos. O banco considera o otimismo dos investidores exagerado e alerta que o excesso de endividamento dos Estados europeus agrava a situação, sobretudo face ao choque energético decorrente da guerra.
O BCE vê um risco de “reavaliação acentuada” face aos máximos recentes, classificando os preços atuais como “esticados”. Caso este risco se materialize, “as instituições não-financeiras podem amplificar estas flutuações de mercado”, gerando efeitos mais graves na economia real.
Luis de Guindos, vice-presidente do BCE, escreve no relatório que “a inesperada guerra no Médio Oriente gerou um choque adverso na oferta, com resultados altamente incertos no médio prazo”. O banqueiro espanhol, que abandona a autoridade monetária no final de maio, lembra vários choques adversos, incluindo “as questões sobre a soberania da Gronelândia, a intervenção militar dos EUA na Venezuela” e a decisão do Supremo norte-americano de reverter as tarifas unilaterais decretadas por Trump, tudo antes do eclodir da guerra iniciada por Washington e Telavive contra Teerão.
O relatório destaca que a incerteza causada pela administração norte-americana está “a aumentar o risco de que estes choques políticos venham a perturbar a ordem internacional e gerar fragmentação geoeconómica e regulatória por todo o mundo”.
Assim, os investidores parecem excessivamente otimistas, com avaliações “esticadas em termos históricos”. O BCE argumenta que “há um risco considerável de uma deterioração do sentimento de mercado, dado que os riscos descendentes associados aos desenvolvimentos geopolíticos, orçamentais e macrofinanceiros parecem subestimados”.
Em declarações à CNBC, de Guindos alertou que “os mercados estão a descontar uma resolução rápida do conflito e, se isso não acontecer, pode desencadear uma modificação na percepção dos mercados. Em combinação com outros elementos, isso pode levar a uma correção”.
O BCE analisa ainda a política orçamental, advertindo que “medidas expansionistas num ambiente geoeconómico desafiante podem piorar ainda mais as finanças públicas e, nalguns países altamente endividados, levar a uma reavaliação do risco soberano”. Este cenário torna-se particularmente provável se as perspetivas de crescimento anémico se mantiverem, combinadas com um “choque energético mais persistente”, especialmente dada a margem de manobra reduzida da maioria dos Estados-membros, já a braços com défices orçamentais e rácios de dívida pública limitativos.