Com o consumo mundial de vinho em 2025 a estar a níveis próximos dos registados no início da década de 1960 – para um mercado potencial que aumentou cerca de 100% – a sustentabilidade da indústria vitivinícola global entrou numa fase de forte pressão, com os mercados importadores – principal motor de crescimento do setor nas últimas décadas – terem começado a perder dinamismo nesta década. Segundo o estudo científico ‘Wine Import in the Context of Transforming Global Consumption’, realizado por investigadores do Instituto Superior Miguel Torga e por duas universidades da Ucrânia, “o vinho perdeu peso estrutural no mercado global de bebidas alcoólicas e representa hoje apenas 12,5% do consumo mundial, quando em 1960 superava os 30%”.
Entre 2000 e 2023, a assimetria entre a oferta e a procura acumulou um excedente global de 717 milhões de hectolitros nas caves de todo o mundo, “um volume equivalente a mais de três anos de consumo global à espera de escoamento”, afirma o estudo, redigido, entre outros, por Maria Cunha, docente e investigadora do Instituto Superior Miguel Torga. O consumo mundial caiu a uma média anual de 1,75% desde 2018, mas a produção recuou apenas 0,3% no mesmo período.
O estudo analisa a evolução da produção, consumo e importações de vinho em 27 países responsáveis por cerca de 86% do consumo mundial e 80% das importações globais do setor. Os investigadores dividiram os mercados em dois grandes grupos – “países produtores autossuficientes” e “países dependentes de importações” – para avaliar de que forma a quebra da procura internacional está a alterar o equilíbrio económico do mercado vitivinícola mundial entre 2000 e 2023.
Uma das conclusões é que o setor ficou excessivamente dependente de um grupo de países importadores – como os Estados Unidos, Reino Unido ou a Alemanha – que concentra 45% do consumo mundial, 66% do volume global e 68% do valor financeiro do comércio internacional do vinho. A dependência dos mercados importadores revela agora o seu lado problemático, uma vez que registaram quedas de importações em 2022, de 5,5%, e em 2023, de 6,3%, as maiores desde 1995.
A investigação destaca particularmente o caso chinês, um dos mercados que durante anos simbolizou a expansão internacional do vinho. Entre 2017 e 2023, o consumo no país caiu de 19,3 para 6,8 milhões de hectolitros, numa quebra que os investigadores associam à dificuldade de consolidar hábitos regulares de consumo num mercado onde o vinho representa apenas cerca de 3% do álcool total consumido. A análise conclui que, mesmo que a China tivesse mantido os ritmos de crescimento registados entre 2005 e 2017, isso já não seria suficiente para inverter a tendência global de quebra do consumo e das importações.
Portugal muito exposto
Um dos mecanismos de combate ao excesso de produção e de stock tem sido o arranque financiado da vinha. A França aprovou o arranque subvencionado de 30 mil hectares – cerca de 4% da sua área vitícola total – com compensações europeias de quatro mil euros por hectare. Maria Cunha alerta que Portugal integra precisamente o grupo mais exposto ao abrandamento da procura internacional, já que os países produtores autossuficientes concentram 78% da produção mundial, mas absorvem apenas 40% do consumo global. Pior: caso o comportamento atual do mercado se mantenha, o consumo mundial pode cair para níveis próximos dos 186,5 milhões de hectolitros, enquanto os países produtores continuarão sob pressão para reduzir excedentes e reposicionar o setor. O enfraquecimento do mecanismo de absorção pelos países exportadores expõe a fragilidade de um modelo de negócio que deixou de encontrar na expansão externa a resposta para a sobreprodução.
Aposta no enoturismo
Uma das saídas para a crise está identificada: a diversificação para o enoturismo. O estudo indica que o consumo à porta das quintas e das adegas aumenta as receitas – mas principalmente as margens de comercialização (em detrimento das empresas comerciais), ao mesmo tempo que permitem a adição de negócios ‘paralelos’ ou mesmo do turismo.
A investigação identifica sinais de segmentação crescente no comércio internacional do vinho, num momento em que os mercados importadores se tornam mais seletivos. Os operadores focados em vinhos de menor valor acrescentado enfrentam pressão acrescida das barreiras não-tarifárias – como exigências fitossanitárias, regras técnicas e requisitos de rotulagem – enquanto os consumidores de maior rendimento continuam disponíveis para absorver custos adicionais sem quebra significativa da procura, refere o estudo.