Cerca de 160 trabalhadores do Arsenal do Alfeite reuniram-se hoje junto à Presidência do Conselho de Ministros, em Lisboa, para exigir ao Governo que clarifique a sua posição sobre o futuro do estaleiro, que querem “100% público”.
“Os trabalhadores acharam que era o momento indicado para virmos junto à Presidência do Conselho de Ministros colocar estas nossas questões, estas nossas preocupações, porque o Arsenal é um estaleiro da Marinha e reafirmamos que devia ser 100% público, ao serviço da Marinha e do país”, defendeu António Pereira, membro da comissão de trabalhadores do Arsenal do Alfeite.
Apesar da chuva, vários trabalhadores reuniram-se frente às instalações do Campus XXI, em Lisboa, com faixas onde se podia ler “Produzir no Arsenal é interesse nacional”, num plenário que contou com a participação do secretário-geral da CTGP-IN, Tiago Oliveira.
Na resolução aprovada, os trabalhadores exigem ao Governo que clarifique as suas intenções quanto ao futuro do Arsenal do Alfeite “nomeadamente em termos de modelo societário, natureza jurídica e composição do capital social”.
Em 2024, o ministro da Defesa, Nuno Melo, disse ter recebido o Arsenal falido e assumiu que o modelo societário dos estaleiros teria de ser repensado. O governante nunca excluiu uma possível privatização, afirmando sempre que nada estava decidido.
António Pereira afirmou que ainda existem muitas dúvidas sobre o que o executivo tenciona fazer, queixando-se que já foi pedida uma reunião ao ministro há mais de um ano, até agora sem resposta.
Numa altura em que a Marinha prevê a aquisição de 12 navios até 2030, os trabalhadores do Arsenal querem saber qual será o nível de investimento nas instalações e meios do estaleiro de forma a garantir a sua manutenção. Questionam também a “situação insólita” de o Conselho de Administração estar incompleto há dois anos, por falta de dois vogais.
A admissão de novos trabalhadores é outra das reivindicações, bem como o desbloqueio da situação de 35 trabalhadores “posicionados num nível salarial inferior ao que deveriam ter”, que se arrasta desde 2018.
António Pereira disse ainda que a comissão de trabalhadores estranha que o Arsenal não se tenha candidatado a um concurso para modernizar as fragatas da classe Vasco da Gama, no valor de 16,3 milhões de euros, ganho pela empresa Navalrocha, que vai ser feita nos próprios estaleiros do Alfeite.
O secretário-geral da CGTP-IN, Tiago Oliveira, salientou que os trabalhadores exigem há anos melhoria das condições de trabalho, mais trabalhadores, ou a modernização das instalações, muitas delas já obsoletas.
“Aquilo que os trabalhadores estão a fazer, e que demonstra aquilo que tem sido a posição destes trabalhadores e de todos os trabalhadores, é que são os primeiros a defender a soberania do país”, salientou.
Alexandre Plácido, coordenador do STEFFAs – Sindicato dos Trabalhadores Civis das Forças Armadas e Empresas de Defesa, lamentou que o Arsenal esteja numa “situação incerta”.
“Temos um ministro da Defesa que faz declarações avulsas sobre as intenções do Governo quanto ao Arsenal, já ouvimos falar em necessidade de rever o modelo societário, já ouvimos falar em investimentos por parte de grupos estrangeiros. É necessário que o Governo clarifique quais são as suas intenções”, sublinhou.
Na candidatura portuguesa ao Instrumento de Ação para a Segurança da Europa (SAFE), prevê-se a aquisição de três novas fragatas, negócio no qual estará incluída a recuperação do Arsenal do Alfeite.
Recentemente, Nuno Melo afirmou que está previsto “o maior investimento dos últimos 50 anos” no Arsenal, em ações de dragagem, equipamentos, infraestruturas e formação de pessoal.
O Arsenal do Alfeite – que passou a Sociedade Anónima em 2009 – atravessa há anos dificuldades financeiras, com degradação de instalações e equipamentos, falta de meios e redução do número de trabalhadores, que atualmente ronda os 400.