O governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, afirmou hoje que “o banco central não faz política”, defendendo o direito de se pronunciar sobre temas importantes para a economia e o país. A declaração surge no contexto de polêmica gerada por suas intervenções públicas sobre a crise no setor da restauração.

Durante a apresentação do Relatório de Estabilidade Financeira (REF), em Lisboa, Santos Pereira foi questionado sobre o impacto de suas declarações na credibilidade e independência do BdP. Em resposta, ele questionou: “O banco central não pode falar? Não podemos falar sobre setores de excelência como o setor da restauração, porquê?”

O governador destacou que o BdP é o principal think-tank do país, produzindo estudos e análises que “mais ninguém faz”. “Apresentamos dados e estudos que mais ninguém faz neste país, tencionamos aprofundar esses estudos e esses dados em várias áreas para podermos dar mais informação às pessoas e fazer a nossa missão que é serviço público”, afirmou.

A controvérsia começou em 20 de abril, quando Santos Pereira publicou na rede social X uma análise intitulada “Crise na Restauração?”. Utilizando estatísticas do setor, ele argumentou que os números mostravam crescimento, contrariando o discurso de crise. A publicação gerou reações imediatas de associações do setor, como a PRO.VAR e a AHRESP, que criticaram a análise como “redutora” e alertaram para o colapso da restauração tradicional.

A PRO.VAR destacou que misturar dados de restaurantes tradicionais, cadeias organizadas, fast food e restauração em supermercados pode levar a conclusões erradas. Já a AHRESP reforçou o apelo por medidas de apoio, argumentando que as estatísticas agregadas não refletem a crise de parte do setor.

Em janeiro, o ministro da Economia anunciou medidas de apoio através do Turismo de Portugal, incluindo pagamento de dívidas à banca e alargamento de prazos de devolução, mas as associações consideraram as ações insuficientes e não executadas até o momento.