O Banco Central Europeu (BCE) está preocupado com o risco de uma correção abrupta nos mercados fruto da incerteza e tensões geopolíticas globais e numa altura em que continuam a quebrar-se valores máximos nos índices bolsistas. O otimismo dos investidores parece, portanto, exagerado e o excesso de endividamento dos Estados europeus agrava a situação, sobretudo face ao choque energético decorrente da guerra no Médio Oriente.
No seu relatório bianual de estabilidade financeira publicado esta quarta-feira, o banco vê um risco de “reavaliação acentuada” face aos máximos que têm sido batidos nos últimos meses nos mercados apesar da incerteza em alta, classificando os preços atuais como “esticados”. Caso se materialize este risco, “as instituições não-financeiras podem amplificar estas flutuações de mercado”, gerando efeitos mais graves na economia real.
“A inesperada guerra no Médio Oriente gerou um choque adverso na oferta, com resultados altamente incertos no médio prazo”, escreve Luis de Guindos, vice-presidente do BCE, naquele que será o seu último relatório de estabilidade financeira antes de abandonar a autoridade monetária no final deste mês de maio.
Falando num sistema financeiro “altamente resistente” durante este ano, o banqueiro espanhol lembra os vários choques adversos, nomeadamente “as questões sobre a soberania da Gronelândia, a intervenção militar dos EUA na Venezuela” e a decisão do Supremo norte-americano de reverter as tarifas unilaterais decretadas por Trump, tudo isto antes do eclodir da guerra iniciada por Washington e Telavive contra Teerão.
Esta incerteza causada pela administração norte-americana está “a aumentar o risco de que estes choques políticos venham a perturbar a ordem internacional e gerar fragmentação geoeconómica e regulatória por todo o mundo”, lê-se no relatório.
Como tal, os investidores parecem excessivamente otimistas, dadas as avaliações atuais “esticadas em termos históricos”.
“Como tal, há um risco considerável de uma deterioração do sentimento de mercado, dado que os riscos descendentes associados aos desenvolvimentos geopolíticos, orçamentais e macrofinanceiros parecem subestimados”, argumenta o BCE no documento.
Em declarações à CNBC, de Guindos alertou que “os mercados estão a descontar uma resolução rápida do conflito e, se isso não acontecer, pode desencadear uma modificação na percepção dos mercados. Em combinação com outros elementos, […] isso pode levar a uma correção.”
No relatório, o BCE olha ainda para a política orçamental, avisando que “medidas expansionistas num ambiente geoeconómico desafiante podem piorar ainda mais as finanças públicas e, nalguns países altamente endividados, levar a uma reavaliação do risco soberano”. Este cenário torna-se particularmente possível caso se mantenham perspectivas de crescimento anémico combinado com um “choque energético mais persistente”, especialmente dada a margem de manobra reduzida da maior parte dos Estados-membros, já a braços com défices orçamentais e um rácio de dívida pública limitativo.