A Europa enfrenta a onda de calor mais intensa e abrangente já registrada, segundo estudo do World Weather Attribution (WWA). O fenômeno, impulsionado pelas mudanças climáticas, tornou-se “virtualmente impossível” há 50 anos.

De acordo com Theodore Keeping, pesquisador do Imperial College, as temperaturas noturnas registradas “não teriam sido possíveis em nenhuma época do ano sem as mudanças climáticas”. O estudo aponta que a probabilidade de temperaturas máximas diárias como as desta semana durante três dias seguidos aumentou mais de 500 vezes.

Na França, o dia mais quente da história foi registrado pelo terceiro dia consecutivo, e a noite também foi a mais quente já registrada. Duas estações nucleares foram desligadas devido ao aquecimento excessivo da água dos rios usada para resfriar os reatores.

As “noites tropicais”, com temperaturas acima de 20°C, se espalharam por Reino Unido, Espanha, França, Alemanha, Áustria e Itália, impedindo a recuperação do corpo humano e agravando os riscos à saúde. O serviço de ambulâncias de Londres registrou recorde de chamadas, e Paris proibiu a venda de bebidas alcoólicas nos períodos mais quentes. Mortes foram registradas na Itália e na Espanha.

Apenas 20% das edificações na Europa têm ar condicionado. No Reino Unido, o número é de 5%. “Muitas residências, escolas e sistemas de transporte foram projetadas para um clima mais frio”, afirmou Carolina Pereira Marghidan, do Centro de Clima da Cruz Vermelha.

O estudo do WWA também analisou 854 cidades em 30 países europeus, constatando que 45% delas já bateram ou devem bater marcas históricas de Índice de Bulbo Úmido Termômetro de Globo (IBUTG), que mede o estresse térmico. A combinação de calor intenso e umidade reduz a eficácia da transpiração.

“Sim, é a mudança climática; sim, a culpa é nossa; não, não é o El Niño. Sim, temos as soluções; não, não estamos a colocá-las em prática com a rapidez necessária”, resume Friederike Otto, professora de Ciência do Clima do Imperial College. “A questão é realmente que tipo de futuro queremos.”