
Está a mudar a forma como se analisam riscos, se deteta fraude, se automatizam processos e se comunica com os clientes. Mas quanto mais depressa avança a tecnologia, mais urgente se torna uma pergunta: como inovar sem perder controlo, segurança e confiança?
É para responder a estas e outras questões que o Jornal Económico Lab apresenta o Observatório IA na Banca: O Futuro da Decisão Financeira, uma iniciativa dedicada ao impacto da Inteligência Artificial neste setor. O projeto reúne especialistas em direito, tecnologia e estratégia para debater o que já está a mudar, os obstáculos por resolver e as decisões que os bancos terão de tomar. Diogo Pereira Duarte, sócio e co-coordenador da área Financeira da Abreu Advogados, leva ao painel a perspetiva da regulação e do compliance, com uma análise minuciosa sobre o enquadramento jurídico, governação e a conformidade com as novas diretrizes europeias de IA.
Na banca, onde uma decisão pode afetar o acesso ao crédito, o perfil de risco de um cliente ou a utilização de dados sensíveis, a governação dos sistemas de IA ganha um peso particular. Não basta adotar uma solução. É preciso saber quem a supervisiona, como são detetados erros, quem responde quando o sistema falha e que informação pode ser explicada ao cliente.
A transparência algorítmica e a ética deixam de ser apenas temas jurídicos. Passam a influenciar a reputação das instituições e a confiança do mercado. Um banco capaz de demonstrar que utiliza IA de forma responsável poderá transformar o cumprimento regulatório numa vantagem competitiva. Num setor em que qualquer incidente pode ter consequências muito para além do impacto imediato, regras claras podem reforçar a confiança e dar aos decisores maior segurança para inovar. Do lado da tecnologia, Sérgio Viana, Managing Partner da Xpand IT, centra a discussão na arquitetura de dados, na escalabilidade e no retorno do investimento. Muitas organizações avançam para projetos de IA antes de terem dados organizados ou sistemas preparados para os suportar. O resultado pode ser uma sucessão de experiências sem impacto no negócio. A qualidade dos dados, a integração de sistemas antigos, os custos de computação e a cibersegurança são questões decisivas. O desafio não é apenas lançar um projeto-piloto, mas conseguir levá-lo do laboratório para a operação diária do banco.
O painel procura ainda perceber onde está hoje o maior valor: nos modelos preditivos, usados para antecipar comportamentos e apoiar decisões, ou na IA generativa, que abriu novas possibilidades na análise de informação e no atendimento. Em qualquer dos casos, o retorno terá de ser medido com critérios de negócio e não apenas pelo grau de novidade da tecnologia. E essa medição nem sempre é simples: muitas organizações conhecem o custo do investimento, mas não têm uma base anterior sólida para comparar ganhos de produtividade. Paulo Cardoso do Amaral, em representação da Católica-Lisbon School of Business & Economics, acrescenta a dimensão estratégica e organizacional. A discussão estende-se à inteligência competitiva, à Web3, à tokenização de ativos e à forma como estas tecnologias poderão convergir.
Mas a transformação não será apenas técnica. A resistência interna, o receio da substituição de funções e a falta de competências podem travar projetos tão depressa como uma infraestrutura inadequada. Por isso, a liderança das equipas e a requalificação profissional ocupam um lugar central no debate. Que funções serão automatizadas? Que novas competências serão exigidas? Como podem bancos e universidades preparar os profissionais para um setor em mudança? Estas perguntas tornam o futuro do talento um dos três grandes eixos do Observatório, a par da eficiência operacional e da confiança regulatória. Os três temas estão ligados. Uma solução pode reduzir custos e acelerar processos, mas falhar se não cumprir as regras. Pode ser juridicamente sólida, mas não criar valor por falta de dados ou escala. E pode ser tecnologicamente avançada, mas enfrentar resistência se as equipas não compreenderem a mudança. O Observatório IA na Banca procura aproximar áreas que muitas vezes trabalham separadas. Juristas, engenheiros, gestores e investigadores são chamados a construir uma visão comum sobre o que significa adotar IA de forma responsável e com impacto mensurável. Na banca, a liderança na era da IA não será definida por quem experimentar primeiro, mas por quem conseguir transformar tecnologia em valor sem comprometer a segurança, a responsabilidade e a confiança dos clientes. Assista ao primeiro episódio brevemente nas plataformas habituais do Jornal Económico Lab.