Num tempo em que a pressão dos mercados se mede ao segundo e a tomada de decisão exige lucidez constante, os hobbies deixaram de ser um luxo para se tornarem uma ferramenta estratégica de liderança. Cada vez mais CEO encontram fora do escritório — na corrida, na música, no surf, na arte ou até na jardinagem — o espaço mental que lhes permite pensar melhor dentro dele. Além de se destacarem no mundo dos negócios, muitos empreendedores famosos cultivam hobbies que revelam diferentes facetas da sua personalidade.
Bill Gates, cofundador da Microsoft, é um apaixonado por bridge, um jogo de cartas estratégico, e também é conhecido pelo seu interesse em colecionar livros raros. Curiosamente, foi Warren Buffett, um dos investidores mais bem-sucedidos do mundo, quem despertou em Gates o gosto pelo bridge. Buffett dedica ainda parte do seu tempo a tocar e ensinar ukulele, um instrumento de cordas tradicional da música havaiana.
Outro exemplo é Richard Branson, fundador da Virgin, que tem no xadrez um dos seus passatempos favoritos. No entanto, o empresário britânico também é frequentemente visto a praticar desportos radicais, como o kitesurf, refletindo o seu espírito aventureiro e a sua procura constante por novos desafios. Estudos recentes citados pelo “Financial Times” mostram que líderes que mantêm atividades regulares fora do trabalho apresentam níveis mais elevados de resiliência, criatividade e capacidade de foco.
A explicação é simples: o cérebro precisa de pausas ativas para consolidar informação e gerar novas ligações. Um artigo publicado no “Journal of Occupational and Organizational Psicology”, revelou que quem pratica um hobby ativamente tem um desempenho profissional entre 15% a 30% superior a quem não se envolve em nenhuma atividade durante o tempo livre. O “The New York Times” por seu lado destaca que práticas como a corrida ou o ciclismo ajudam a reduzir o stresse crónico, um dos maiores inimigos da tomada de decisão racional. Mais do que evasão, os hobbies são hoje vistos como extensão da disciplina de liderança.
Um CEO que corre dez quilómetros ao fim de semana treina mais do que o corpo: treina consistência, resistência e clareza mental. E, paradoxalmente, é nesse movimento fora da sala de reuniões que muitas das melhores decisões começam a ganhar forma. Num mundo empresarial cada vez mais exigente, talvez a vantagem competitiva não esteja apenas nos dados ou na estratégia — mas na capacidade de parar, respirar… e recomeçar.
“Descanso a correr, mas devia ser mais regrado”, diz Gonçalo Regalado, CEO do Banco Fomento
É na corrida que Gonçalo Regalado encontra o seu ponto de equilíbrio. Com uma agenda exigente, o CEO do Banco de Fomento troca a gravata por uns ténis sempre que pode. “Corro 10 km, mas mais ao fim de semana e, às vezes, a minha filha do meio acompanha-me de bicicleta”, conta, numa rotina onde família e bem- -estar se cruzam. Diz ainda que nunca viaja sem uns ténis de marca na bagagem. “São um investimento. São mais baratos do que um ortopedista”, aconselha.
E mesmo em viagens arranja sempre tempo para fazer uma corrida. Sempre bem-disposto partilha fotos a correr no Luxemburgo, em Bruxelas e enquanto mostra a prova no telemóvel, atira em jeito de brincadeira: “Corro em cidades para trazer fundos para Portugal”, diz divertido. “Esta tem o Banco Europeu de Investimento como cenário”, prova mostrando a selfie que tirou de madrugada. Corre sempre por volta das 07h00 da manhã. Pai de quatro filhos, junta ao rol de atividades voleibol e futebol de praia e ainda andar de bicicleta. Pelo meio, há também espaço para a leitura. “Este verão levo comigo ‘The Thinking Machine’. Sou um apaixonado por livros. Adoro ler”.
“Toco bateria desde os oito anos”, conta Fernando Daniel Nunes, CEO da Vista Alegre Atlantis
Lidera uma das empresas mais icónicas do país, a Vista Alegre Atlantis, mas é na música que encontra o refúgio para acalmar a azáfama de gerir uma empresa centenária. “Estudei música numa escola em Viseu durante muitos anos. Toco bateria desde os sete, oito anos”, revela Fernando Daniel Nunes. Agora, o ritmo desacelerou. “Toco talvez uma vez por mês por falta de tempo”, conta, acrescentando que pelo caminho experimentou outros instrumentos, caso da viola baixo e aventurou-se no saxofone, mas foi a bateria que lhe roubou o coração.
O CEO da Vista Alegre Atlantis conta que fez parte de várias bandas e diz que alguns amigos ainda lhe pregam partidas em festas de aniversário ou casamentos chamando-o ao palco para tocar bateria. Quanto a nomes que o inspiram afirma que foram muitos. Porém, destaca Phill Collins e Ringo Starr, dos Beatles. Outra das suas paixões é o golfe. “Gostava de jogar mais vezes”, confessa, dizendo ainda que “qualquer hobbie nos ajuda a sair da nossa bolha e a desenvolver soft skills”. No caso da bateria é preciso muita coordenação e resistência, caraterísticas fundamentais para quem lidera um negócio.
“A arte tranquiliza-me. É o que me dá paz”, afirma Estela Barbot, presidente do Fórum Portugal Global
Num quotidiano exigente, há hábitos que funcionam como âncoras. No caso de Estela Barbot é a arte, interesse que a acompanha desde a infância e que continua a marcar o seu tempo fora do trabalho. “Tranquiliza-me. Gosto de visitar museus, de ver exposições e de descobrir novos talentos”, diz, destacando Serralves como um local onde todos podem conviver com a arte. “Gosto de pessoas criativas. A criação de valor tem de ter criatividade”. A sua paixão é tão forte que já tirou alguns cursos de história da arte.
Também gosta de escultura e de objetos com significado. Outra das suas paixões é a literatura. “Todos os anos vou a um festival de literatura na Colômbia, o Hay Festival, onde procuro novos escritores”, diz. Ali também se alimenta de cinema, filosofia, teatro e música. Estela Barbot relembra ainda os tempos de criança, em casa dos pais, em que “devorava livros”. Um hobby que passou aos filhos e agora aos netos. A realidade é que a sua vida também dava um livro, tal a riqueza do seu percurso profissional. E termina confessando: “Digo sempre que agora vou acalmar, mas nunca acalmo!”
“Medito todos os dias de manhã”, revela João Moreira Rato, presidente do IPCG
Falou com o Jornal Económico entre reuniões do conselho de administração da Caixa Geral de Depósitos. “Tenho vários hobbies, mas há um que de que não prescindo como rotina matinal: a meditação. Medito cerca de 25 minutos, diz, contando que já o faz há mais de 20 anos. Começou quando estava na Goldman Sachs. “Tive várias orientações para começar a meditar. Iniciei com uma vertente mais cristã, os beneditinos, depois passei para uma mais indiana e agora budista.”
Estudos recentes publicados pela “Harvard Business Review” provam que a meditação promove a flexibilidade emocional e a capacidade de tomar decisões com maior clareza. E o mais importante, ajuda os líderes a não ser tão reativos, a serem mais criativos e com uma presença forte de liderança. João Moreira Rato diz ter vários hobbies. Por isso, destacou ainda que pratica corrida bisemanal e trekking duas vezes por ano, pelo menos. “Já fiz trekking no Equador, no Nepal, na Escócia… e já subi o Kilimanjaro”, enumera. Na sua opinião, os hobbies são muito importantes na vida de um gestor, porque ajudam a tranquilizar o espírito. “Uma mente calma ajuda a analisar situações com mais clareza e a tomar decisões mais robustas.”
“Aproveito para viajar, ler, cozinhar e caminhar”, afirma Sofia Tenreiro, CEO da Siemens Portugal
Num mundo em que a tecnologia ocupa um lugar central na vida profissional, Sofia Tenreiro faz questão de lhe dar um papel diferente quando chega o período de descanso. A CEO da Siemens Portugal encara as férias como uma oportunidade para abrandar o ritmo, dedicar tempo aos prazeres simples e recuperar energia para os desafios do dia a dia. Viajar, descobrir novos lugares, mergulhar na leitura, cozinhar e caminhar são algumas das atividades que privilegia, numa combinação de momentos de descoberta, criatividade e contacto com a natureza. Ainda assim, a tecnologia continua presente, mas com outro propósito: deixa de ser uma ferramenta de produtividade para se transformar num instrumento de curiosidade, aprendizagem e acompanhamento do bem-estar. É esta mudança de perspetiva que marca a forma como a gestora vive o tempo livre. “Aproveito as férias para viajar, ler, cozinhar e caminhar. Quanto à tecnologia, acompanha-me sempre, mas de forma diferente: deixa de ser uma ferramenta de trabalho para passar a ser uma fonte de curiosidade e uma forma de monitorizar o meu bem-estar”, diz a gestora.
“Subir o Kilimanjaro é experiência que nos transforma”, revela Paula Gomes Freire, managing partner da VdA
As caminhadas ocupam um lugar especial na vida de Paula Gomes Freire. Dos Caminhos de Santiago à Serra da Estrela, passando pelas Arribas do Guincho e pela ilha do Pico, encontra nos trilhos um espaço de desafio e de reflexão. A próxima aventura já está definida: a Patagónia. Foi, porém, o Kilimanjaro que mais a marcou. A primeira subida aconteceu em 2019 e continua bem presente na memória. “É um renascer físico”, resume. O momento mais exigente é o ataque ao cume, feito durante a noite. Paula Gomes Freire recorda o instante em que iniciou a subida e viu, ao longe, pequenos pontos de luz que serpenteavam pela montanha. Eram as lanternas dos outros alpinistas. “Só é possível chegar ao topo porque vamos em grupo.” Uma experiência que, diz, a transformou e cujas aprendizagens transporta frequentemente para a liderança e para o dia a dia profissional.
“Subir o Kilimanjaro é uma experiência que nos transforma. É preciso coragem e respeitar os riscos.” Em fevereiro deste ano, regressou ao Kilimanjaro, desta vez acompanhada por 50 colegas da VdA. Foi uma oportunidade para conhecer as pessoas além do contexto profissional. O grupo dividiu-se por duas rotas distintas e reencontrou-se no topo, um momento que descreve como particularmente simbólico. “É a confirmação de que é possível planear para o imprevisto.” Para a advogada, esse encontro representou também um exercício de confiança, trabalho de equipa e superação. Da montanha trouxe uma convicção que aplica diariamente à vida profissional: “Não há nada de muito difícil que dure para sempre. O sol vai nascer.”
“A maratona ensina humildade, disciplina e resiliência”, diz Daniel Gaio Simões, diretor-geral da Bayer Portugal
Há quem encontre o equilíbrio no descanso e quem o procure no desafio constante. Para este líder, a corrida de longa distância é muito mais do que uma atividade física: é uma escola de vida e uma fonte de aprendizagem que influencia a forma como encara a liderança, a tomada de decisão e a gestão das equipas. “É precisamente isso que me fascina. A maratona ensina humildade, disciplina e resiliência. Com o passar dos anos percebi também que a gestão da energia é tão importante como a gestão do tempo. A corrida ajuda-me a manter o foco, a disciplina e a clareza de pensamento, mas são a minha mulher e os meus três filhos que me ajudam a manter a perspetiva e o equilíbrio.” Tal como na gestão de uma empresa, acredita que os resultados são consequência de um trabalho contínuo, de decisões tomadas ao longo do caminho e da capacidade de manter o rumo, mesmo quando surgem obstáculos. “No final dos 42 quilómetros, o maior prémio raramente é o tempo que aparece no relógio. É a consciência de todo o caminho percorrido para chegar até ali. O verdadeiro desafio (e a verdadeira recompensa) está na jornada.”
“Gosto de cozinhar e viajar. Um exige método e paciência, o outro sair da rotina. Os dois fazem falta”, Guy Pacheco, CEO dos CTT
Guy Pacheco é CEO dos CTT – Correios de Portugal, liderando uma das empresas mais emblemáticas do país num momento de transformação do setor postal e logístico. Com um percurso marcado pela gestão e pela eficiência operacional, destaca-se por um perfil rigoroso e orientado para resultados.
Fora do contexto profissional, encontra nos hobbies um equilíbrio essencial. Gosta de cozinhar e de viajar — duas atividades que, embora distintas, se complementam. A cozinha exige método, precisão e paciência; já as viagens convidam à descoberta e à rutura com a rotina. Entre receitas e destinos, Guy Pacheco cultiva um lado mais pessoal que revela tanto disciplina como curiosidade, características que também se refletem na sua liderança.