Com o mesmo dinheiro compra menos alimentos. Isto é inflação. No entanto, em Portugal, esta tem estado controlada. Em março de 2026 situava-se nos 2,7%, segundo o INE. Porém, se olharmos para as estatísticas dos preços dos alimentos publicadas pela mesma entidade vemos que, em dezembro de 2025, estes já estavam a crescer 3,54% e de março de 2025 a março de 2026 passaram para 3,7%. Analisando mais ao pormenor verificámos que, por exemplo as hortícolas subiram 5,2%, o peixe 9% e os ovos 23,3%. Só para citar alguns exemplos. O cabaz alimentar da Deco com 63 produtos selecionados também confirma esta tendência. E este é apenas o início da história. Os preços vão subir mais, “É inevitável”, diz o retalho e o setor agrícola.

Gonçalo Lobo Xavier, diretor-geral da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED) como disse recentemente ao Jornal Económico, desde o produtor agrícola, com as suas máquinas, até à parte logística e agroindústria, todos estão pressionados para aumentar os preços por via do aumento dos custos. Da parte da distribuição refere que a “única coisa que podem controlar são as margens, que no retalho alimentar são de 2% a 3%, que já de si são baixas”, adiantando ainda ser inevitável uma subida e que estes não têm aumentado porque há muita concorrência e os retalhistas têm esmagado as margens. Porém, a conjuntura internacional não está a ajudar podendo mesmo ser o rastilho para uma subida futura dos preços devido ao aumento dos combustíveis e à subida dos custos de produtos como as embalagens e os plásticos que também derivam do petróleo. Junte ainda a taxa de carbono que também pesa nas contas das empresas.

No meio, os agricultores

Do lado da produção, os agricultores estão com a corda na garganta, enfrentando uma subida acentuada dos custos, nomeadamente da energia, fertilizantes, rações e mão de obra que nem sempre conseguem repercutir nos preços de venda. Com menor poder negocial muitos vêm as suas margens comprimidas. A verdade é que dados do INE de 2025 dizem que o rendimento agrícola nacional caiu cerca de 10,7%.

“Haverá, inevitavelmente, um aumento dos preços dos produtos agrícolas devido às perdas de produção com a tempestade Kristin, uma vez que haverá menos disponibilidade no mercado. Algumas culturas perderam-se a 100%”, explica Marise Oliveira, gerente da Cooperativa Agrícola de Oliveira do Bairro e Vagos (Calcob). A somar ao problema há a subida dos custos de produção, nomeadamente o elevado preço do combustível agrícola, dos fertilizantes, das sementes, das embalagens, etiquetas e filmes. “Os preços estão instáveis. Variam todos os dias”, diz. No caso desta associação que tem 5000 associados cultivam essencialmente em minifúndio, por isso enfrentam ainda a concorrência espanhola com maiores explorações e mais mecanização.

Joaquim Capoulas, vice-presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), diz que o aumento dos preços será inevitável senão os agricultores deixam de produzir e faltarão produtos no mercado. “Os que estão muito dependentes do combustível e dos fertilizantes estão mais suscetíveis a aumentar e o que pode acontecer é uma não produção, caso a distribuição não compense esses custos”, explica, exemplificando com o caso das zonas afetadas pela intempérie. “No entanto, as consequências de todas estas variáveis ainda vão aparecer no futuro. “

O responsável diz que há setores agrícolas em Portugal em que o rendimento do produtor caiu drasticamente e exemplifica, dizendo que é o caso da produção pecuária de suínos, que caiu 50%, ou do azeite, que também teve uma quebra de 40%. A cortiça registou uma descida na ordem dos 30%. E as hortícolas e frutas também se queixam com cortes de rendimento. O único setor que subiu foi o pecuário ligado à produção extensiva de bovinos e ovinos. Joaquim Capoulas destaca a importância do setor agrícola para a economia, dizendo ser fundamental para a soberania nacional. “A produção alimentar é tão importante como o reforço do armamento”, defende.