A forma como os europeus reagem aos fluxos migratórios em expansão por todo o continente revela uma divisão cada vez mais inflamada das opiniões. Geralmente, encontramos de um lado uma população mais receosa, que manifesta as suas inquietações; do outro, os fervorosos entusiastas da imigração ilimitada; e, num registo mais apagado, aqueles que permanecem indiferentes, sem grande reacção.
A súbita entrada de dezenas de milhares de marroquinos em Ceuta, no final de Julho, foi uma situação atípica que confundiu um pouco essas linhas de divisão, já que as imagens da vertiginosa turba em território espanhol, em ritmo de arrastão, geraram um justificado alarme social. Os europeus estão mais habituados (e anestesiados) a lidar com a entrada gradual de estrangeiros em suaves prestações, logo, uma invasão tão gráfica e massiva veio atiçar os ânimos. O alarme foi tão inequívoco que os meios de comunicação viram-se obrigados a encetar esforços para fabricar uma leitura dos factos, tentar tranquilizar a opinião pública e converter uma questão política numa questão moral.
No fim de contas, é aí que a esquerda progressista tem sido mais hábil, ao arrastar todas as questões políticas para o domínio moral. Numa fase em que os progressistas deixam de ver a fronteira como uma instituição da soberania e passam a apresentá-la como uma barreira à solidariedade, foi fácil transformar a invasão de Ceuta numa “crise migratória” que exigia muita “empatia” pelos mais “vulneráveis”. Outra regra deste discurso é que os “vulneráveis” estão sempre fora da Europa e os culpados ou privilegiados estão do lado de cá – e isto nem se põe em causa!
A gramática realista da política (poder, soberania, segurança, fronteira…) tem sido parcialmente substituída por uma gramática ética do cuidado (empatia, inclusão, hospitalidade, dependência…). Daqui decorre uma grande facilidade em policiar as fronteiras morais do debate, pois aquele que defende controlo migratório passa a ser suspeito de desumanidade. É nestas manobras que são também mobilizados fragmentos avulsos de um cristianismo secularizado, simplificados e descontextualizados, para confrontar aqueles que se afirmam cristãos e, simultaneamente, defendem a limitação da imigração. Vemos isto acontecer por meio de jornalistas, comentadores, deputados e até sacerdotes imprudentes.
Não é paradoxal que a sociedade “iluminada” que acha inadmissível sustentar opiniões sobre bioética ou família na doutrina cristã, tente sacar da Bíblia para influenciar a política de fronteiras na Europa? Parece-me que a sacralidade da vida humana, bem como a centralidade do matrimónio e da família são mais basilares, não? É absurdo que alguém use a imagem do “amor ao próximo” para promover a extensão de direitos a alógenos em detrimento da população nativa, inclusive degradando o mercado de trabalho e rebentando com a capacidade de infraestruturas e serviços na Europa.
Talvez o caso dos sacerdotes seja o mais preocupante no meio desta tendência, pois diluem a fronteira entre o ministério da Palavra e as suas preferências ou fidelidades políticas. Recorrem sobretudo a Mateus 25: 34-36, em que Jesus se dirigia aos discípulos num discurso escatológico: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e acolhestes-me; nu e vestistes-me; enfermo e visitastes-me; estava na prisão e viestes ver-me”
O resvalar simplista para interpretações mundanas e insensatas deve ser motivo de preocupação para todos aqueles que olham para as Escrituras com zelo, pois a tentação de sinalizar virtude leva alguns clérigos a praticamente tirar Cristo da passagem bíblica e transformá-la numa intimidação ideológica. Nada disto é honesto, na medida em que, enquanto o cristão procura obedecer ao mandamento “ama o teu próximo”, mas a reflexão política deve zelar pelo interesse da comunidade, prevendo os incentivos e os efeitos prováveis das suas decisões.
Em suma, o Evangelho não inclui ditames para uma política migratória, deixando uma margem de interpretação a cada pessoa. Vale a pena lembrar os mais desinformados que o centro da fé cristã não é construir “uma sociedade mais justa” focada em “objectivos de desenvolvimento” globais. O centro da fé cristã é a reconciliação do homem com Deus, através da fé na encarnação, morte e ressurreição de Jesus Cristo, visando os temas do pecado, redenção, conversão, frutos do Espírito e vida eterna. Arrisco-me a imaginar que Cristo seria implacável contra quem usa excertos dos Evangelho para servir caprichos políticos. E alguns leitores estarão agora a perguntar-se a que propósito o Evangelho é chamado para este assunto. E com todo a razão, mas deverão dirigir essa pergunta a todos os comentadores e jornalistas que teimam em dizer que um cristão não pode falar contra a imigração ou que tentam que políticos de direita façam um exame de consciência em directo.
Além das imprudências pastorais, existe uma soberba inqualificável entre os leigos que afirmam que a mensagem do Novo Testamento é inequívoca e que temos de acolher o estrangeiro porque ele é a imagem de Deus. Talvez o longo tempo de paz no continente ou o excesso de erudição tenham desconectado algumas pessoas do mundo dos mortais, mas já é tempo de compreenderem alguns pontos essenciais: dignidade universal das pessoas não elimina o valor particular das comunidades históricas; anunciar Cristo a povos diferentes não corresponde a dissolver as comunidades etnoculturais; o Estado tem o direito de definir a política migratória que considera adequada aos interesses da sua própria comunidade política; a gestão da segurança, da estrutura demográfica e dos serviços públicos das nações soberanas não é compatível com utopias inconsequentes com roupagens de fraternidade cristã.
Assim, claro que podemos defender uma política migratória restritiva e, individualmente, agir com generosidade e em coerência com os frutos da fé nas nossas vivências diárias. Pelo contrário, deduzir de versículos bíblicos uma política migratória, apresentada como mandamento de Cristo, é simples má-fé, ignorância atrevida ou devoção ao bezerro de ouro do cosmopolitismo.