Mais de uma década após a sua queda, o Banco Espírito Santo, que ficou conhecido com os ativos considerados tóxicos, o que lhe valeu a designação de “BES mau” continua a agravar a situação líquida negativa. O BES – em Liquidação registou também um prejuízo de 335 milhões em 2025, reflexo essencialmente dos encargos associados aos passivos existentes.

O Banco Espírito Santo fechou o exercício de 2025 com um capital próprio negativo de 11.210 milhões de euros, agravando ainda mais a situação patrimonial da instituição que, desde 2014, arrasta o maior escândalo financeiro da história recente de Portugal. Segundo o Relatório e Contas de 31 de dezembro de 2025, o capital próprio passou de -10.876 milhões de euros em 2024 para -11.210 milhões de euros no final de 2025. Este agravamento de 334 milhões de euros resulta diretamente do prejuízo líquido do exercício, que ascendeu a 335 milhões de euros (contra 402 milhões em 2024).

O balanço revela uma discrepância abissal: o ativo total é de apenas 181 milhões de euros, enquanto o passivo atinge os 11.392 milhões de euros. Ou seja, os passivos são 63 vezes superiores aos ativos. A massa insolvente continua a apresentar um buraco patrimonial colossal, fruto dos prejuízos acumulados desde a resolução do banco em agosto de 2014 e da posterior revogação da licença bancária pelo BCE em julho de 2016.

Apesar de alguns movimentos positivos – como a reversão líquida de provisões no valor de 15 milhões de euros e a redução do prejuízo operacional –, o resultado líquido continua negativo, mantendo o capital próprio em território profundamente negativo. As reservas e resultados transitados acumulam um saldo negativo de 18.191 milhões de euros, refletindo os enormes prejuízos históricos da instituição.

Este capital próprio negativo recorda que, mesmo quase 12 anos após a resolução, os credores do BES (depositantes não transferidos, obrigacionistas e outros) continuam a suportar o grosso dos prejuízos. A avaliação independente realizada pelo Banco de Portugal em 2016 estimava uma recuperação de apenas 31,7% para os créditos comuns numa liquidação imediata. Os números de 2025 mostram que a realidade continua a ser dura: o buraco patrimonial não dá tréguas.

Entretanto a Comissão Liquidatária do BES liderada por César Brito pediu a demissão ao Banco de Portugal no início do ano que substituiu o órgão composto por três membros, responsável por gerir e executar o processo de encerramento (liquidação) da entidade, por um órgão singular. Neste caso pela Liquidatária Judicial, Liliana Santos (nomeada em fevereiro de 2026 após renúncias na Comissão Liquidatária liderada por César Brito).

Os três membros da Comissão Liquidatária foram saindo. A primeira a sair foi Joana Soares Martins que saiu ainda em 2024. Depois Luís Carvalho saiu em dezembro de 2025 e finalmente César Brito, o presidente, saiu com efeitos em janeiro.

O relatório, assinado em Lisboa a 9 de abril de 2026 pela Liquidatária Judicial Liliana Santos — nomeada pelo Tribunal do Comércio em janeiro de 2026 em substituição da anterior Comissão Liquidatária —, revela que no plano judicial, os principais desenvolvimentos do ano passaram pela continuação do processo de verificação e graduação de créditos, com 1.505 impugnações ainda por decidir de um total de 1.946. O Fundo de Resolução viu reconhecido um crédito privilegiado de cerca de 2,7 mil milhões de euros, valor que, por si só, excede o ativo disponível, tornando improvável qualquer pagamento a credores comuns ou subordinados.

Nos processos-crime — incluindo os casos “Universo BES”, BESA e aumento de capital de 2014 —, os julgamentos prosseguiram ao longo do ano, com vários recursos e incidentes processuais ainda em curso.

Quanto às participadas, a BES Finance foi formalmente liquidada nas Ilhas Caimão em janeiro de 2025. A situação do BES Angola continua sem resolução judicial definitiva, e a ESHCI entrou em liquidação no final de 2023.

A Liquidatária Judicial sublinha no relatório de gestão de 2025 que a atividade do BES se limita à “conservação e realização dos ativos” remanescentes após a transferência massiva para o Novobanco. Obviamente não há atividade bancária, não se concedem créditos nem se recebem depósitos. O foco está na tramitacão judicial da liquidação, na verificação de créditos e na recuperação de valores junto de ex-administradores e processos-crime.

O processo de liquidação judicial segue o seu curso lento nos tribunais, com dezenas de apensos de verificação de créditos, incidentes de qualificação da insolvência e ações de resolução de atos em benefício da massa.

Enquanto isso, o registo individualizado dos valores mobiliários emitidos pelo BES (ações e obrigações) continua a ser gerido diretamente pela instituição, com milhares de extratos enviados aos titulares.