No dia em que apresentou “os melhores resultados de sempre para um semestre”, Miguel Maya, CEO do BCP, destacou que o cenário macroeconómico exige prudência. As imparidades para crédito subiram 16,3% (para 104,4 milhões de euros), justificadas pela prudência face à conjuntura económica e geopolítica. “Entendemos que deveríamos reforçar as reservas para fazer face a eventuais ‘cisnes negros’, até porque há vários cenários imprevisíveis que podem, de facto, vir a concretizar-se”, disse o banqueiro.
O Millennium BCP registou um resultado líquido de 565,8 milhões de euros no primeiro semestre de 2026, um aumento de 12,7% face ao período homólogo, impulsionado pelo crescimento em Portugal e pela forte recuperação da operação internacional. A rentabilidade medida pelo ROE ascendeu a 14,6% e a 15,2% em termos de RoTE (rentabilidade dos capitais próprios tangíveis).
Questionado sobre as recomendações europeias para fusões bancárias, Miguel Maya mostrou-se cético relativamente à necessidade de criar bancos “too big to fail” na banca de retalho. “Normalmente, estas recomendações surgem por comparação com os bancos americanos. O BCP considera que ao nível da banca de investimento global, há claramente sinergias de gestão. Nos operadores da banca de investimento, a dimensão é um tema muito relevante. Naquilo que é o nosso modelo de negócio, a banca de retalho, de proximidade, não”.
O CEO defendeu que a União Bancária está longe de estar completa, dificultando a criação de sinergias. “Toda a parte fiscal e os regimes de insolvência variam de país para país. Ou seja, é altamente complexo existirem essas sinergias e, portanto, tirar vantagens destas fusões ao nível dos resultados”, sublinhou. Alertou ainda que a concentração pode reduzir a diversidade de modelos de concessão de crédito às empresas e ter efeitos perniciosos ao nível da concorrência.
Miguel Maya também comentou a proposta da Autoridade da Concorrência (AdC) para simplificar a mudança de conta bancária, defendendo que “a concorrência é extremamente importante para o sistema financeiro”, mas pedindo bom senso para não criar mais burocracia. Sobre a decisão do Tribunal Constitucional relativa às contribuições para o Fundo de Resolução, reiterou que o objetivo do banco não é obter uma “vitória”, mas corrigir um modelo que considera criar distorções concorrenciais.
O CEO mostrou-se confiante na execução do plano estratégico do BCP, mas alertou para a imprevisibilidade global, justificando o reforço das reservas para “cisnes negros”. Garantiu que não deteta sinais de deterioração generalizada na economia portuguesa, destacando a capacidade de adaptação das empresas. Sobre participações em Moçambique, Angola e França, afirmou que não há planos de desinvestimento urgente, mas que o banco avaliará oportunidades quando surgirem.
Quanto à política de remuneração de acionistas, Miguel Maya disse que não decorre da falta de alternativas de crescimento, mas da intenção de manter uma remuneração atrativa. Sobre inteligência artificial, afirmou que o BCP está atento a esta realidade, investindo em tecnologia e pessoas para gerir os riscos. Por fim, sobre a possibilidade de um fundo soberano participar no capital do BCP, limitou-se a afirmar que se trata de um tema político, garantindo que a gestão do banco permanecerá profissional e alinhada com os acionistas privados.