O diálogo interativo com os quatros candidatos a secretário-geral da ONU arranca na terça-feira, num processo que moldará o futuro do multilateralismo e que poderá levar, pela primeira vez na história da organização, à eleição de uma mulher.

A ex-presidente chilena Michelle Bachelet será a primeira candidata a ser ouvida, na manhã de terça-feira, em Nova Iorque, seguindo-se o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Mariano Grossi, na tarde do mesmo dia.

Na quarta-feira será a vez da ex-vice-presidente da Costa Rica Rebeca Grynspan, que terá a sua audição de manhã, e do ex-presidente senegalês Macky Sall, que será ouvido no período da tarde.

A diplomata argentina e ex-representante especial da ONU para Crianças e Conflitos Armados, Virginia Gamba, chegou a entrar na corrida para suceder a António Guterres como líder da ONU através da nomeação das Maldivas. Contudo, a nação insular acabou por retirar o apoio à sua candidatura, eliminando-a assim do processo eleitoral.

Cada potencial candidato teve de ser oficialmente indicado por um Estado ou grupo de Estados, mas não necessariamente pelo seu país de origem.

Todas as sessões de diálogo interativo serão transmitidas ‘online’ e decorrerão na sala do Conselho de Tutela das Nações Unidas, um dos seis principais órgãos da organização, em Nova Iorque.

Cada candidato terá a oportunidade de apresentar a sua declaração de visão para a organização, responder às perguntas dos Estados-membros e interagir com entidades da sociedade civil.

A sessão de cada candidato terá três horas de duração, período que será dividido, numa primeira fase, em torno das declarações de visão pessoal e das competências de gestão do candidato.

Na segunda parte, serão abordados três pilares: a paz e a segurança, o desenvolvimento sustentável e o clima, e os direitos humanos.

A próxima pessoa a chefiar o Secretariado das Nações Unidas iniciará o mandato de cinco anos em 01 de janeiro de 2027, sucedendo ao antigo primeiro-ministro português António Guterres.

Em consonância com uma tradição de rotação geográfica, nem sempre observada, a posição de secretário-geral da ONU está a ser reivindicada pela América Latina.

Já se passaram 35 anos desde que um latino-americano liderou a ONU. A região argumenta que ignorar essa tradição agora quebraria o pacto informal e não escrito que mantém o equilíbrio geográfico da ONU.

Contudo, muitas nações africanas argumentam que, como Guterres (Europa Ocidental) representou uma “interrupção” na rotação em 2016 (informalmente, era a vez da Europa Oriental), o ciclo está efetivamente quebrado e alegam que o fardo da manutenção da paz de África confere ao continente o direito de liderar.

Muitos países também defendem que uma mulher ocupe o cargo pela primeira vez nos 80 anos de história da ONU.

Contudo, são os 15 membros do Conselho de Segurança da ONU, que devem iniciar o processo de seleção até ao final de julho, que realmente têm a decisão nas mãos.

É apenas por recomendação do Conselho de Segurança que a Assembleia-Geral pode eleger o secretário-geral para um período de cinco anos, renovável por mais um mandato.

O Conselho de Segurança realizará votações secretas – chamadas de votações informais – até que chegue a um consenso.

Por fim, os cinco membros permanentes do Conselho com poder de veto — Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França — devem concordar com um candidato.

O Conselho adotará então uma resolução, tradicionalmente a portas fechadas, recomendando uma nomeação para a Assembleia-Geral. A resolução precisa de nove votos a favor e nenhum veto para ser aprovada.

Embora se presuma que a resolução conterá o nome de um único candidato (uma convenção que remonta a 1946; não uma regra restrita), crescem os apelos para que o Conselho apresente à Assembleia-Geral dois ou mais candidatos, entre os quais uma seleção possa ser feita.

A Assembleia-Geral, assim como líderes mundiais através do Pacto para o Futuro, incentivaram todos os Estados a considerarem a nomeação de candidatas mulheres.

A carta de competências exige que o próximo secretário-geral demonstre fortes capacidades de liderança, dedicação e eficácia, com experiência em estruturas de governação, assim como em relação às Nações Unidas e à gestão da instituição à luz das reformas.

Embora a escolha de um secretário-geral da ONU seja sempre um momento de grande atenção no universo dos assuntos multilaterais, a eleição deste ano chega num momento de grave crise multidimensional da instituição, que tem em risco a sua influência e orçamento.

Apesar dos esforços do atual secretário-geral para tentar convencer o mundo de que a ONU é hoje mais vital do que nunca, a organização fundada após a Segunda Guerra Mundial tem hoje a sua influência desacreditada e o seu pleno funcionamento em risco devido aos cortes de financiamento de nações como os Estados Unidos, país que acolhe a sede da instituição, em Nova Iorque, e o seu maior doador.