Nas últimas décadas, Portugal assistiu a uma transformação relevante ao nível da qualificação da sua população. Apesar dos desafios que continuam presentes no sistema educativo e formativo, é inegável que o país dispõe hoje de muitos profissionais com elevados níveis de conhecimento e competências reconhecidas internacionalmente. O desafio que se coloca agora não é apenas continuar a formar talento, mas criar as condições para que esse talento seja valorizado, aplicado e transformado em inovação, produtividade e desenvolvimento económico.
A questão central não está apenas no número de pessoas que deixam o país, mas na capacidade que Portugal tem de criar ecossistemas onde os profissionais qualificados encontrem oportunidades para crescer, inovar e construir projetos de vida.
A competitividade de um país mede-se também pela sua capacidade de transformar conhecimento em valor e de proporcionar contextos onde as pessoas possam concretizar o seu potencial. Isso depende dos salários, mas também da possibilidade de um jovem qualificado aceder à habitação, encontrar oportunidades de desenvolvimento profissional e integrar organizações que valorizem o conhecimento e a inovação. Quando estas condições falham, perde a pessoa, perdem as organizações e perde o país.
Portugal tem dedicado muita atenção à forma como distribui a riqueza, mas ainda pouca atenção à capacidade de a criar. Corremos o risco de discutir continuamente como repartir o bolo existente sem dedicar a mesma energia a aumentar a dimensão desse bolo. A sustentabilidade de um país não depende apenas da justiça na distribuição dos recursos existentes, mas sobretudo da capacidade de gerar novo valor, aumentar a competitividade e criar oportunidades para que as pessoas possam desenvolver os seus projetos profissionais e pessoais.
Num contexto marcado pela Inteligência Artificial e pela transformação digital, esta realidade torna-se ainda mais evidente. A tecnologia, por si só, não cria riqueza. O verdadeiro fator diferenciador está na forma como é integrada nos processos, na capacidade de potenciar o talento humano e na criação de culturas organizacionais que promovam a aprendizagem contínua e a inovação.
Este é também um desafio para as políticas públicas. Não basta investir na formação de mais licenciados, mestres ou doutorados. É necessário criar um ambiente económico capaz de absorver esse talento, estimular o investimento em inovação, apoiar a modernização das empresas e incentivar modelos de organização mais competitivos. Caso contrário, continuaremos a formar profissionais altamente qualificados para responder às necessidades de outros mercados.
A produtividade é frequentemente tratada como um indicador económico, mas é, acima de tudo, um reflexo das escolhas que um país faz. Escolhas sobre educação, ciência, inovação, modelos societários e valorização das pessoas. Nenhuma destas dimensões, isoladamente, resolverá o problema. Em conjunto, podem transformar a capacidade competitiva da economia portuguesa.
Neste contexto, Portugal não precisa apenas de discutir quanto paga aos seus profissionais. Precisa de refletir sobre as oportunidades que lhes oferece para crescer, inovar e construir carreiras com impacto. Porque o talento não procura apenas um salário, procura um projeto, um propósito e a possibilidade de contribuir para organizações e um país que valorize aquilo que tem para oferecer.
Se quisermos inverter o ciclo da baixa produtividade e da saída dos mais qualificados, teremos de olhar para além dos salários. A verdadeira competitividade constrói-se através do conhecimento, da inovação e da capacidade de transformar talento em valor. É esse o desafio que Portugal não pode continuar a adiar.
O futuro do ensino superior nunca se decidirá apenas na lei, nem na forma como classificamos as instituições. Decidir-se-á na resposta que formos capazes de dar a uma pergunta simples: estamos a preparar os estudantes para repetir o mundo que conhecemos ou para construir o mundo que aí vem?