O governo tem estado a criar problemas, por não se preparar convenientemente. A proposta de reforma do trabalho precisava de ter sido negociada com os sindicatos e com partidos da oposição, de modo a garantir a sua aprovação. No entanto, parece que se escolheu acumular erros em cima de erros, desde não colocar o tema no programa eleitoral; não explicar a necessidade desta reforma em concreto (e não a ideia vaga e etérea da necessidade de reformas, como se qualquer reforma fosse boa só por ter o rótulo de “reforma”); a falta de foco das propostas; a total inabilidade política da ministra (por que é que ainda está no cargo?); etc., etc., etc.
O executivo não tem qualquer direito de dizer que os portugueses não querem mudar, porque a forma como este dossier foi gerido dificilmente poderia ter sido pior.
A forma como o processo de digitalização dos exames decorreu também tem sido muito penosa. Em primeiro lugar, somado a tantas outras experiências, parece que se instalou a ideia absurda que a digitalização é um objectivo em si mesmo e não um mero instrumento para melhorar a eficiência da administração pública e facilitar a vida dos cidadãos e empresas. É urgente fazer uma auditoria à digitalização de processos que foi feita na administração pública, onde se torraram centenas de milhões de euros, porque há sinais muito preocupantes de que apenas se digitalizaram burocracias que não faziam sentido, sem aproveitar a oportunidade para as rever de uma ponta à outra.
Depois, o ministro da Educação foi, mais uma vez, enganado pelos serviços do ministério, que asseguraram que tudo estava controlado, quando não se passava nada disso. O que isto revela sobre o que se passa neste ministério e em vários outros é assustador. Que directores gerais são estes em cuja palavra não se pode confiar? Porque é que não são liminarmente afastados, com justa causa?
O ministro também não esteve nada bem em insultar a família dos alunos, os únicos que não se portaram mal neste processo.
Estes são apenas dois exemplos de falta de cuidado e impreparação, mas que podem ter consequências gigantes.
As sondagens já têm permitido ao PS e ao Chega sonhar com retirar grandes benefícios de eleições antecipadas e, se o governo continuar a somar erros como os referidos, esses sonhos podem tornar-se realidade dentro de não muito tempo.
Infelizmente, novas eleições até podem mudar o governo, mas dificilmente alterarão o actual quadro de muito difícil governabilidade, em que os três maiores partidos têm votações semelhantes, mas não conseguem coligar-se para formar um executivo maioritário.
A conjuntura externa está cada vez mais exigente, com o aumento da despesa na defesa, com o desafio da Inteligência Artificial, enquanto internamente a economia tem estado estagnada há mais de 25 anos. Ou seja, a ingovernabilidade seria sempre má, mas, com as nossas dificuldades, tem todas as condições para ser terrível.