A Europa está a descobrir que a era em que podia ser uma potência económica sem ser plenamente uma potência geopolítica talvez tenha terminado. Durante décadas, o continente viveu sob uma combinação extraordinariamente favorável. Os Estados Unidos garantiam sua segurança, a Rússia fornecia energia relativamente barata e a China oferecia mercados, investimentos e produtos competitivos. Nesse ambiente, a União Europeia pôde concentrar-se naquilo que fazia melhor: integração económica, comércio, regulação e construção de um Estado social sofisticado. Esse mundo, porém, está a desaparecer.

A guerra na Ucrânia recolocou a segurança no centro da agenda europeia e destruiu a ilusão de que a paz no continente era uma condição permanente. A rutura com Moscovo expôs profundas vulnerabilidades energéticas. Ao mesmo tempo, a ascensão industrial e tecnológica chinesa passou a pressionar setores essenciais da economia europeia, da indústria automóvel à transição energética.

Mas talvez seja a transformação trumpiana dos Estados Unidos que está a provocar a mudança mais profunda. Washington continua sendo o principal aliado da Europa, mas já não oferece a mesma previsibilidade de épocas anteriores. O problema não é apenas Donald Trump. É estrutural. Os Estados Unidos concentram cada vez mais a sua atenção estratégica na Ásia, consideram a China o seu principal competidor e esperam que os europeus assumam uma parcela maior do custo da sua própria defesa.

Para Washington, isso é racional. Para a Europa, é uma revolução. O paradoxo é que a autonomia estratégica europeia talvez esteja sendo construída mais por necessidade do que por convicção. Vladimir Putin obrigou a Europa a repensar a sua segurança, apesar da sua ação na Ucrânia evidenciar a incapacidade de uma expansão territorial maior. Xi Jinping levou-a a refletir sobre a competitividade industrial. E Donald Trump tornou evidente o risco de uma dependência excessiva dos Estados Unidos. Cada um à sua maneira, os três estão empurrando a Europa para a geopolítica.

Autonomia estratégica não significa neutralidade, muito menos equidistância entre Estados Unidos, China e Rússia. Significa possuir capacidade suficiente para escolher.

Durante muito tempo, a Europa acreditou que o seu enorme mercado, as suas normas regulatórias e a sua influência diplomática seriam suficientes para assegurar a sua relevância global. Funcionaram bem em um mundo relativamente estável. Funcionam menos em uma era novamente dominada pela competição entre grandes potências. A escolha europeia, portanto, é histórica. Pode tentar preservar uma ordem que lhe proporcionou décadas de prosperidade ou reconhecer que essa ordem mudou e preparar-se para o mundo que está a surgir.

O maior risco talvez não esteja na “Santa Trindade” que hoje inquieta a Europa: uma Rússia que a confronta, uma China que a pressiona e uns Estados Unidos cada vez menos dispostos a protegê-la. O maior risco é uma Europa incapaz de definir, por si mesma, o que deseja ser. O século XXI poderá obrigá-la a aceitar uma verdade desconfortável: riqueza sem poder oferece conforto, mas não garante soberania. E, no longo prazo, condena a Europa a deixar de ser rule-maker para se tornar, cada vez mais, rule-taker.