Numa altura em que o Plano de Recuperação e Resiliência entra na reta final, em que os aeroportos se enchem de turistas e vários setores industriais procuram não perder o embalo das exportações dos últimos meses, o crescimento do país continua a ser travado pela escassez generalizada de mão de obra. A economia portuguesa está ainda muito longe de suprir a falta de trabalhadores, de acordo com o balanço do Jornal Económico (JE) junto de várias das principais associações setoriais.

Um dos setores mais afetados é o da construção. “A escassez de mão de obra continua a ser o principal constrangimento ao crescimento do setor”, lamenta Ricardo Gomes, presidente da AICCOPN – Associação dos Industriais de Construção Civil e Obras Públicas. “Estimamos que existam atualmente entre 80 e 90 mil postos de trabalho por preencher”. O problema decorre do “envelhecimento da força de trabalho, da reduzida entrada de jovens nas profissões da construção, do aumento da procura provocado pelo elevado volume de investimento público e privado e da forte concorrência internacional por trabalhadores qualificados”, diz Ricardo Gomes ao JE.

“A falta de mão de obra condiciona a capacidade de resposta das empresas, aumenta os prazos de execução das obras, eleva os custos e limita a capacidade do setor de acompanhar o volume de investimento atualmente em curso”, explica o líder da AICCOPN. É que “estamos perante um ciclo histórico de investimento em habitação, infraestruturas ferroviárias, energia, equipamentos públicos e execução do PRR” – e as empresas “têm feito um enorme esforço para responder às exigências”.

O responsável deixa, por isso, um alerta: “Se não conseguirmos aumentar rapidamente a disponibilidade de recursos humanos qualificados, existe o risco de comprometer a velocidade de execução destes investimentos, com impactos na competitividade da economia portuguesa”.

Também o turismo, apesar de não ter uma estimativa exata do número de trabalhadores em falta, “continua a enfrentar uma escassez significativa de mão de obra, sobretudo em algumas regiões e em determinadas épocas do ano”, sublinha o presidente da Confederação do Turismo de Portugal ao JE, afirmando mesmo que é “um dos seus principais desafios”. Há vagas disponíveis “em todo o país, com particular incidência na região do Algarve”.

Francisco Calheiros nota que “este constrangimento não trava a procura turística, que continua a crescer, mas limita a capacidade de resposta das empresas, obrigando por vezes à redução de serviços, ao encerramento sazonal de espaços ou à sobrecarga das equipas existentes”. E é por isso que defende uma reforma laboral que permita “uma melhor gestão da organização dos tempos de trabalho”.

“É um problema estrutural que se arrasta desde a recuperação pós-pandemia”, recorda, e não vai ficar melhor nos próximos tempos: “Com o crescimento sustentado da procura turística, tende antes a intensificar-se do que a atenuar-se”.

Faltam 5 mil trabalhadores nos campos

Por sua vez, a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) fez um levantamento junto das suas empresas associadas e identificou “a necessidade de mais 5.000 trabalhadores para 2026”, face ao aumento da produção e ao crescimento do setor. Cristina Morais, chefe de gabinete da direção da CAP, afirma ao JE que este problema “limita a capacidade de produção e o crescimento”, a par de outros, “como é o caso da disponibilidade de água”.

E o presidente da Associação Industrial Portuguesa (AIP) adianta que “existem milhares de postos de trabalho por preencher, muitos dos quais permanecem vagos durante vários meses”, embora não consiga quantificá-los em detalhe.

José Eduardo Carvalho afirma que “a disponibilidade de mão de obra, sobretudo a de qualificação mais adequada, continua a ser uma das maiores limitações ao crescimento” do setor. “Muitas empresas deixam de aceitar encomendas, adiam investimentos ou operam abaixo da sua capacidade por falta de trabalhadores”, o que “atrasa projetos de expansão e condiciona o crescimento das exportações”. Mas o líder da AIP diz que “o verdadeiro risco é mais profundo” se Portugal “não conseguir aumentar a produtividade e criar um ambiente mais competitivo para as empresas”. A solução, diz, “não pode limitar-se ao recrutamento”.

Além do envelhecimento da população e da redução da população ativa, o responsável sublinha que este é também o resultado “da emigração de trabalhadores qualificados, do desajustamento entre a formação e as necessidades das empresas e de um enquadramento económico que continua a penalizar o investimento e a criação de emprego”. Portugal, defende, tem de melhorar a competitividade, reduzir os custos de contexto e incentivar o investimento.

Finalmente, a Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP) adianta ao JE que, “em algumas áreas”, as suas associadas continuam “a reportar dificuldades na contratação de trabalhadores com determinadas qualificações”, o que “constitui um constrangimento efetivo à expansão das empresas, sobretudo quando afeta funções especializadas ou atividades com maior dificuldade de recrutamento”.

Nesses casos, “as empresas enfrentam maiores custos de contratação e retenção de trabalhadores, podendo ver limitada a sua capacidade de resposta à procura e de concretização de novos investimentos, prejudicando, assim, o seu crescimento”, explica fonte oficial desta confederação. “Um número significativo de empresas do comércio a retalho está a ajustar horários e a voltar, por exemplo, a encerrar ao almoço”.

No entanto, os dados do INE “sugerem que essas dificuldades não têm impedido o crescimento do emprego global no setor”. Na verdade, “de novembro de 2025 até maio do corrente ano, as colocações de ofertas de emprego por parte dos setores de serviços passaram a decrescer, por comparação com os meses homólogos”. O cenário entre junho e outubro do ano passado era diferente, com “muitas atividades de serviços” a aumentarem o número de ofertas de emprego junto do Instituto de Emprego e Formação Profissional face ao ano anterior. A mesma fonte nota, no entanto, que o recurso ao IEFP é “apenas uma pequena parte das vagas por preencher”.

“Via verde” com balanço misto

Perante a incapacidade do mercado de trabalho português de responder às necessidades das empresas, vários setores dependem amplamente de trabalhadores estrangeiros. O Governo, que tem vindo a impor restrições à entrada de imigrantes, criou, em simultâneo, uma “via verde”, em parceria com entidades patronais, para acelerar a entrada legal de trabalhadores, mas Francisco Calheiros não está convencido. “A CTP reconheceu, desde o início, a importância de existir um mecanismo formal e regulado, mas ágil, para a contratação de trabalhadores estrangeiros”. Só que, um ano após a sua concretização, “é manifestamente insuficiente face às necessidades do sector”, porque “os resultados práticos continuam aquém das expectativas e o protocolo não tem conseguido responder com a rapidez e a escala exigidas pela realidade do Turismo”. Não é uma questão menor para o setor, uma vez que “cerca de 30% dos trabalhadores são imigrantes”.

Outras associações, no entanto, veem este programa de forma mais favorável. Para a AICCOPN, “constituiu um passo muito importante” e os resultados “são positivos”, com o número de processos “a crescer de forma consistente”. Ricardo Gomes reconhece, porém, que “este mecanismo, apesar de relevante, não resolve, por si só, um problema estrutural”.

“Continua a ser necessário aumentar a capacidade de resposta dos serviços administrativos, acelerar procedimentos e complementar este instrumento com políticas de formação, qualificação e valorização das profissões da construção”, defende.

Para a CCP, a via verde “está a correr bem, em termos de celeridade”, mas ressalva que “exige organização” e que os trabalhadores a contratar já tenham sido identificados previamente, além dos custos com “seguros, viagens etc”. Por isso, reconhece que “não é um modelo que muitas micro e pequenas empresas possam seguir com facilidade”. Já as “empresas de maior dimensão têm manifestado a sua satisfação com a celeridade do processo”.

Também os representantes da agricultura veem neste protocolo “um exemplo de sucesso” na parceria entre Estado e privados. Cristina Morais afirma que “tem sido possível contratar com legalidade e celeridade”, o que permitiu “a emissão de 4.500 vistos para o setor”. Ou seja, “corresponde exatamente aos objetivos traçados”, embora ainda não seja suficiente para colmatar todas as necessidades.

No mesmo sentido, José Eduardo Carvalho defende que este mecanismo é “uma das medidas mais relevantes adotadas nos últimos anos para responder à escassez de mão de obra” do setor. “Através da AIP encontram-se em tramitação processos relativos a cerca de 5.000 trabalhadores”, revela o responsável, considerando que “a imigração económica é uma componente indispensável da resposta às necessidades das empresas”. O líder da AIP admite, porém, que “existe sempre margem para acelerar procedimentos administrativos”.

Medidas para combater escassez

As associações empresariais têm várias sugestões para combater a falta de mão de obra. José Eduardo Carvalho, por exemplo, defende uma revisão da fiscalidade sobre o trabalho, porque “a elevada carga fiscal e contributiva reduz significativamente o rendimento líquido dos trabalhadores e aumenta os custos suportados pelas empresas”, uma realidade que “dificulta a retenção de talento, incentiva a saída de profissionais qualificados para outros países e reduz a atratividade de Portugal para captar recursos humanos altamente qualificados”. Considera ainda que se deve complementar a “via verde” com “uma aposta forte na qualificação dos trabalhadores, no ensino profissional e na valorização das carreiras técnicas”.

O reforço do investimento na “formação profissional inicial e contínua” e o “aumento da capacidade de requalificação de adultos” fazem parte também do leque de soluções sugeridas pelo presidente da AICCOPN, que defende ainda “consolidar e agilizar os mecanismos de imigração laboral regulada, promover o reconhecimento mais célere de competências profissionais, incentivar a industrialização, a digitalização e a inovação dos processos construtivos e continuar a valorizar as carreiras e a imagem do setor” da construção. “Nenhuma destas medidas, isoladamente, resolverá o problema”, sublinha Ricardo Gomes.

No caso do comércio e dos serviços, a CCP entende que “falta uma abordagem regional ao nível, por exemplo, das comunidades intermunicipais, para promover a entrada de trabalhadores estrangeiros de uma forma mais estruturada, respondendo às necessidades das empresas”, ao mesmo tempo que se respondem a outros problemas, “como a falta de habitação para estes trabalhadores e o tempo de transporte, e promovendo o agrupamento familiar”.

Já no turismo, o presidente da CTP pede “o reforço e a agilização da ‘via verde’ para contratação de estrangeiros, com maior rapidez e escala de resposta por parte das entidades públicas competentes”, mas também “a celebração de acordos de mobilidade migratória laboral com países da CPLP; o reforço dos programas de formação e integração de imigrantes e beneficiários de proteção internacional para o sector”. Mas não fica por aqui. Francisco Calheiros defende que se continuem a aumentar os salários através da negociação coletiva; a requalificação de trabalhadores; a simplificação administrativa nos processos de atribuição de NIF e de número de Segurança Social a trabalhadores estrangeiros recém-chegados.

E a CAP sugere o “estabelecimento de parcerias entre empregadores, disponibilidade de robots e instrumentos de inteligência artificial” para mitigar o problema.

No cardápio destas entidades está também a lei laboral. A CTP considera “essencial para garantir mais produtividade, mais crescimento e melhores salários”, enquanto a AIP diz ser fundamental para “tornar o mercado de trabalho mais moderno, mais flexível e mais adaptado às exigências da economia atual”.